LEITURA - A poesia ecocrítica respira
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 

Nevoeiro sonoro de cigarras. Passos dentro dos ossos. Febre das árvores. Umidade grávida de caracol. Animais estourados de luz. Pulmão de pólen. Cascos afiados em estrelas. O sol dos olhos das formigas. Paisagens abertas em carne viva. Tudo isso, e muito mais, pode ser encontrado na poesia do londrinense Vinícius Lima.
Nascido em 1977, Vinícius Lima incorpora em sua literatura os elementos da natureza em estado de comunhão simbólica. Autor de "Herbarium" (2013), "Planta de Pé" (2014), acaba de lançar dois novos livros, "Começa Aqui a Morada do Fogo", pela editora londrinense Madrepérola, e "Animais Floridos" pela editora mineira Anome.
"Começa Aqui a Morada do Fogo" reúne as três primeiras publicações de Vinicius Lima lançadas de maneira artesanal, independente e com tiragem limitada: "Fluxo Voz" (2007), "Visão Túnel" (2008) e "Nigredo" (2009).
"Animais Floridos" reúne versos em que o poeta escancara a sintonia perdida entre homem e natureza, entre o ser humano e as forças naturais do meio ambiente.
Tradutor de autores como Nicanor Parra, Leopoldo María Panero, Alejandro Jodorowsky e Marosa di Giorgio, Vinícius Lima fala a seguir sobre seus caminhos poéticos.
Em sua poesia há a forte presença de elementos simbólicos que não são encontrados na lógica ou na razão. De onde provem esses elementos?
Minha poesia caminhou naturalmente para o universo simbólico. Com o tempo compreendi que a realidade moldada pela razão e pela lógica é uma fração ínfima de nosso mundo. Depois da construção do edifício civilizacional que nos impôs uma ditadura do racional, principalmente por intermédio de pensadores como Descartes, Kant e Francis Bacon, ficou difícil questionar o universo da razão. As leituras que fiz ao longo da minha vida foram as grandes responsáveis por me posicionar ao lado do simbólico, da sombra e do intuitivo. Caras como Nietzsche, Jung, Bachelard, Jodorowsky, entre outros, me conduziram pelas mãos nessa direção. Minhas leituras sobre Alquimia, principalmente Paracelso, também contribuíram para essa mudança de paradigma. Quando falo em simbólico não estou me referindo ao metafísico, de onde passo longe. Penso no simbólico indígena, perspectivista, mítico. É preciso que o homem reaprenda a viver sua vida interior e para isso é necessário que entenda o universo simbólico, verdadeiro vocabulário desta terra de luz e sombras. Minha poesia sofreu, então, total contaminação deste universo simbólico, que dentro da tradição literária brasileira sempre foi relegada a um segundo plano.
Em seu livro "Herbário", a flora oferece uma abordagem da vida. Já em "Animais Floridos", é a fauna que oferece essa abordagem. Você considera que a vida humana passa por esses dois elementos?
Nos livros "Herbarium" e "Planta de Pé" as plantas realmente são as protagonistas. Mas este protagonismo não se refere a um animismo ingênuo que povoa nossa literatura, que adorna os seres não-humanos de qualidades humanas. Tentei passar nestes dois livros uma visão de quase simetria ontológica, em que todos os seres presentes ocupam a mesma importância dentro da teia da vida. Em "Animais Floridos" sigo nesta mesma direção, adicionando de forma mais marcante os animais a esta grande malha de relações. Penso que a vida humana deveria passar não só por esses dois elementos, mas por todos os elementos que participam do jogo da vida aí eu incluo os homens, os rios, o vento, as montanhas, as florestas, insetos, animais, etc. Está na hora do homem abandonar sua postura narcísica, egoísta, antropocêntrica e utilitária do mundo. Tenho observado um aumento de pensadores e poetas que abandonaram o projeto antropocêntrico e conduzem seus trabalhos para um viés ecocrítico. Isto é um sinal de que os paradigmas estão mudando e aponta para uma posição de que para que o humano não desapareça e saia literalmente da m... é necessário que haja uma mudança de postura frente ao meio ambiente, à alimentação e a vida urbana como a conhecemos.
Você defende práticas como jardinagem selvagem, permacultura, agricultura ecológica, longas caminhadas, etc. Como essas práticas se relacionam com sua literatura?
Realmente esses temas sempre fizeram parte da minha vida. A natureza sempre foi minha grande preocupação. Desde muito cedo comecei a ler sobre agricultura e ecologia. Em determinado momento da minha vida estas leituras começaram a ficar mais sérias e perigosas. Comecei a ler muita coisa sobre anarquismo, agroecologia, permacultura e ecologia. A partir de 2005 comecei a ter contato com os pensamentos do Anarquismo Ontológico do norte-americano Hakim Bey, além da agroecologia da Ana Primavesi, e seu manejo ecológico do solo e a obra do Bill Mollison e David Holmgren, pais da permacultura. Essas ideias causaram uma série de mudanças na minha forma de ver o mundo. Como toda essa bagagem teórica estava pedindo para ser colocada em prática, resolvi alugar uma casa e aplicar tudo isso. A partir de então adotei a jardinagem selvagem como filosofia de vida, que consiste em simplesmente deixar as coisas crescerem naturalmente, com o mínimo de intervenção. Esta tática acabou influenciando minha escrita completamente. A vegetação, os pequenos animais e insetos começaram a crescer no meu texto e o humano foi cada vez mais perdendo seu protagonismo. Meus poucos leitores me dizem que a impressão que têm ao ler meus últimos livros é de que a paisagem está em movimento, em constante processo de nascimento e morte. Este constante processo de feitura da paisagem eu herdei das longas caminhadas que me habituei fazer. Gosto de lembrar que minhas caminhadas não possuem qualquer relação com esporte ou saúde física, muito menos com o flâneur do homem urbano. Caminho pra pensar, pra reordenar o mundo. Por isso prefiro caminhar no mato, nas estradas de chão de terra, ou como diz o poeta americano Gary Snyder, fora da trilha. Aprendi com as caminhadas que tudo é metamorfose, transformação e levo para meus textos estas "insignificantes" lições que a natureza nos proporciona.
Em sua visão, qual a poesia necessária para o mundo atual?
Não sei se é possível dar uma resposta para tal questão, mas se fosse arriscar qualquer coisa seria "uma poesia que saia do papel" e ocupe as escolas, universidades, presídios, museus e prefeituras e transforme tudo em uma grande horta coletiva para alimentar o povo. Uma poesia que nos faça repensar nossa relação com a natureza e com os outros seres que dividem esse pequeno planeta finito. Uma poesia que nos faça trepar mais, brincar mais, sorrir mais. Em suma, uma poesia que algum dia deixe de ser útil, pois a vida será tão poética que a literatura poderá finalmente ser enterrada com pompas em um grande funeral indígena, colorido, em que dançaremos até adormecermos enquanto o sol se inclina atrás das montanhas.

Serviço:
"Começa Aqui a Morada do Fogo"
Autor Vinícius Lima
Editora Madrepérola
Páginas 84
Quanto R$ 33,00

"Animais Floridos"
Autor Vinícius Lima
Editora Anome Livros
Páginas 100
Quanto R$ 20,00


