LEITURA - A planície das dores
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de novembro de 2006
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Em algumas estradas, a paisagem faz questão de afirmar que a memória das dores é mais persistente que a memória das alegrias. Em outras, a paisagem apresenta um quadro bem diferente, deixa claro que a memória da alegria é de uma espécie superior à da dor. Nos dois casos a paisagem pode ser apreciada como duas faces de uma moeda sem face. Nada mais do que o impulso da vida.
Podemos nos deparar com questões diversas. Por que uma mulher após passar pelas aterradoras dores do parto, decide de maneira deliberada ter outro filho e outro parto, outro filho e mais um parto? Por que um menino que se diverte subindo em árvores, ao cair e quebrar os braços, logo após a recuperação deseja novamente subir em árvores? Na realidade não há respostas saciáveis, há apenas a vida e a solidão como eficiente método reflexivo onde algum tipo de luz pode ser vislumbrada.
Esse método reflexivo solitário, com alto grau de sutileza é cultivado em ''Montanha Gelada'', romance do norte-americano Charles Frazier publicado pela Editora Companhia das Letras. A dedução que ele oferece, aquela que também está presente de maneira opaca no cotidiano de qualquer ser vivo, é de que a vida é sempre maior do que qualquer questionamento sobre ela.
Trata-se de um romance que, ao narrar uma história, leva o leitor ao centro de uma viagem poética. A trajetória de uma existência consciente de sua própria vulnerabilidade, acompanhada pela força de sobrevivência interior, fazem da narrativa de Charles Frazier um oásis diferenciado da prosa americana contemporânea. Sua literatura é semelhante àquela praticada por autores como Cormac McCarthy e Jim Harison, onde o espaço territorial ocupa papel de personagem coadjuvante.
Nascido em 1950, Charles Frazier não é o que pode se chamar de escritor profissional. Professor de língua inglesa durante duas décadas em universidades da Carolina do Norte e Colorado, abandonou a carreira acadêmica para se dedicar à literatura. Aos 47 anos publicou seu primeiro e único romance, ''Montanha Gelada''. Após um inesperado sucesso, refugiou-se numa fazenda em sua região de origem para se dedicar à criação de cavalos. Não publicou mais nenhuma obra.
''Montanha Gelada'', ambientado durante a Guerra Civil americana, narra a trajetória de Inman, jovem soldado confederado que, ao ver os horrores da guerra, resolve deserdar. Foge do hospital em que está internado e empreende uma viagem de volta, a pé, a sua região natal, o extremo oeste da Carolina do Norte aos pés da Montanha Gelada. Seu objetivo é reencontrar a jovem Ada e declarar seu amor. Apresenta as dores da guerra do ponto de vista de um desertor, não de um soldado.
Sendo um foragido, Inman passa por todo tipo de problemas e dificuldades. Conhece pessoas isoladas dentro de rudezas naturais. Essa caminhada solitária pelos campos despovoados se transforma em uma espécie de viagem interior, uma odisséia em direção a algum tipo de abrigo.
De maneira paralela, ''Montanha Gelada'' narra a trajetória de Ada, filha de um pastor e educada para as artes. Com a morte do pai, e sem saber fritar um ovo, passa a lutar pela sobrevivência entre erros e acertos. Para isso passa a contar com a ajuda de Ruby, uma pobre garota abandonada que aprendeu a sobreviver sozinha, na porrada, sem nunca ter com que contar.
Charles Frazier narra a desesperada busca pela sobrevivência de Inman e Ada, exteriormente e interiormente, até o encontro dos dois. Um encontro que, quando tudo indicava ser uma esperança, apresenta-se como um novo drama. Ambos estão tão repletos de ferimentos, tão machucados, que um simples abraço torna-se inviável, algo passível de outras dores.
A história narrada por Frazier em ''Montanha Gelada'' pode ser descrita como uma paisagem de pepitas de dor e alegria. Cinco pepitas de dor para cada pepita de alegria. Revela que o destino é um terreno baldio no meio da memória.
Serviço:
- ''Montanha Gelada'' de Charles Frazier, Editora Companhia das Letras, tradução de Beth Vieira, 430 páginas, R$ 41,00.


