O passado é uma pedra que todo homem carrega nas costas. Aqueles que têm consciência da densidade do peso, sofrem quando precisam atravessar um rio a nado. Aqueles que não têm consciência da pedra, levam uma vida sem receio das águas. Alheios ao peso, enfrentam os rios como se enfrentassem campos floridos.
Em seu novo livro, ''Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra'', o escritor moçambicano Mia Couto ilumina um punhado de pedra que os homens carregam como se narrasse uma fábula do renascimento. Lançado pela Companhia das Letras, o romance traz uma história onde o real e o fantástico se abraçam para formarem um único corpo - onde o simbólico espalha seus frutos pelo chão.
Em ''Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra'', apresenta a jornada do jovem Mariano, que após viver muitos anos longe família, volta à cidade natal para participar do enterro do avô (também chamado Mariano). O que seria apenas uma viagem para participar das cerimônias fúnebres, torna uma intricada maratona pelos ocultos corredores da história da família.
Ao chegar na pequena cidade, Luar-do-Chão, recebe da avó a incumbência de comandar a cerimônia do funeral que segue uma antiga tradição do interior de Moçambique. Primeiro, Mariano precisa se certificar de que o avô, que repousa sobre uma mesa no meio da sala, está realmente morto. Algo que nem o médico da família consegue confirmar.
Como passou muito tempo longe da família, aos poucos vai se inteirando dos segredos de cada membro. Também começa a receber bilhetes misteriosos, onde o emissor lhe impõe o desafio de limpar os dramas ocultos dos parentes para que o corpo do avô possa descansar em paz. Então através de conversas, Mariano vai descobrindo um passado doloroso em cada parente, feridas abertas que precisam ser cicatrizadas.
Juntamente com essas descobertas, o personagem também vai descobrindo um pouco de sua verdadeira origem, que ele desconhecia. Descobertas que faz com que ele, ao mesmo tempo que entre em contado com a morte do avô, viva uma espécie de renascimento. A consciência de possuir um passado que não tinha conhecimento, confere um novo sentido a sua existência. Tudo com a atmosfera mágica da cultura africana.
A literatura de Mia Couto pode ser descrita, a grosso modo, como junção do universo de autores como Guimarães Rosa e Gabriel Garcia Marquez. Tanto em seus romances como contos, o trabalho com a linguagem é marcante, envolvem tanto a recriação da oralidade cultural do ''sertão'' quanto a criação de palavras buscando um sentido mais rico. Associado a isso, em suas narrativas, o fantástico invade o real a ponto de deixá-lo atordoado de destino.
Mia Couto nasceu em Beira, Moçambique, em 1955. Filho de imigrantes portugueses. Biólogo de formação acadêmica, trabalhou durante vários anos como jornalista. Estreio na literatura em 1983, com o livro de poemas ''Raiz de Orvalho''. Depois vieram dois volumes de contos ''Vozes Anoitecidas'' (1986) e ''Cada Homem é Uma Raça'' (1990). Em seguida, o romance ''Terra Sonâmbula'', que entrou para a lista dos melhores livros da literatura africana do século 20. A partir daí arrebanhou milhares de leitores nos países de língua portuguesa, principalmente em Portugal, com obras como ''Estórias Abensonhadas'' ( 1994), ''Contos do Nascer da Terra'' (1997) e ''Vinte e Zinco'' (1999).
Uma das características da literatura de Mia Couto, que pode passar desapercebida, está no fato de não discorrer de maneira pedante sobre o antagonismo as questões raciais africanas oriundas do colonialismo europeu. Em suas história, que possuem características de fábulas, o que interessa é a mítica do homem, não da cor de sua pele. Optando por um enfoque universal, sempre trabalhando com referencias culturais de sua região, é um ótimo contador de histórias no melhor sentido do termo.


SERVIÇO:
- ''Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra'' de Mia Couto, Editora Companhia das Letras, 264 páginas, R$ 35,00.

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