LEITURA - A pátria de kichutes
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Nos dias de hoje talvez pouca gente saiba do que se trata um kichute. Mas todo marmanjo, que foi moleque de vila durante a década de 70, sabe o que ele representa. Uma espécie de totem da infância perdida.
Kichute era um tênis que imitava uma chuteira de futebol. Todo preto, possuía algumas saliências de borrachas no solado que simulavam cravos. Era o único calçado de moleque que possuía um cadarço de um metro e meio de comprimento. Garotas não usavam kichute.
Na verdade era um calçado vagabundo que era tratado como talismã pelos garotos de periferia que sonhavam com as glórias do futebol. Qualquer pelada num campinho empoeirado se convertia em decisão de campeonato, ou mesmo numa final de Copa do Mundo.
Mas ter um kichute nos pés não era para qualquer um. As mães geralmente se recusavam a comprar o calçado para seus filhos. Um garoto de kichute se sentia poderoso. Passaria o dia inteiro na rua jogando bola. Voltaria para casa somente no início da noite, todo ralado, arranhado, rasgado, quebrado e imundo.
Em seu romance ''Meninos de Kichute'', o escritor Márcio Américo reconstitui a odisseia de um garoto pelas ruas da Vila Nova de Londrina dos anos 70. Com um kichute nos pés, Beto, protagonista e narrador do livro, experimenta todas as agruras da infância. Tudo com um bom humor desmistificador.
Publicado originalmente em 2003, a obra acaba de ganhar sua segunda edição. Em plena Copa, o livro pode ser encontrado em bancas de jornal de todo o país. Relançado pela editora Minuano em formato de bolso, a publicação antecede a estreia do filme homônimo do cineasta Luca Amberg, adaptação cinematográfica do romance que vai chegar aos cinemas brasileiros nos próximos meses.
Retratando, do ponto de vista de um moleque, a infância num bairro de Londrina, Márcio Américo trabalha com um tema universal. Impossível não associar ''Meninos de Kichute'' ao clássico ''Os Meninos da Rua Paulo'' do escritor húngaro Ferec Molnár, publicado originalmente em 1907.
As duas obras, cada uma em seu leque de referências de época, apresentam a infância como um rito de passagem para a idade adulta. Aquele período em que o aprendizado das relações humanas aparece de maneira mais substancial. A descoberta que a vida é um jogo em que o mundo adulto se revela como algo incompreensível, próximo do absurdo.
A grande surpresa da nova edição de ''Meninos de Kichute'' está no fato de Márcio Américo ter reescrito grande parte do livro. Não no sentido de alterar o enredo, mas na direção de aprimorar a narrativa. As interferências do narrador na visão infantil, que aparecia como ruído na primeira versão, foram todas eliminadas. O resultado é um texto que preserva o bom humor e se revela mais coeso, sem distrações externas ao universo do personagem Beto.
As páginas finais do romance permanecem como uma beleza estarrecedora. A percepção que a infância está chegando ao fim, que a vida apresenta uma nova face inevitável. E o vazio que ela cria dentro do peito só será preenchido muito tempo depois, na idade adulta através das lembranças.
''Meninos de Kichute'' revela aquilo que qualquer adulto sabe e faz questão de se esquecer: a infância só existe enquanto manifestação da recordação, das lembranças. Ela é uma reconstrução na memória dos marmanjos. A restauração daquilo que foi sumariamente perdido, daquilo que não está mais ao alcance das mãos. Daquilo que apenas existe nos campos abstratos da memória, com uma bola rolando na poeira de um campinho de vila.
Na parte de baixo do bairro morava a escória, os pobres: eu, Barriguina, Pilico, Gambá, Pelezinho, os meninos perebentos, sujos, maltrapilhos, que tinham suas cabeças raspadas (corte americano como dizia meu pai), moleques que levavam em suas bolsas escolares uma caixa com apenas seis lápis de cor, que calçavam sandálias havaianas, congas, quando muito um kichute. Meninos tortos que usavam calções que as próprias mães faziam com retalhos (algumas delas, mais caprichosas, costuravam nas laterais pequenas tiras brancas que lembravam os calções oficiais). Na esquina de baixo moravam os meninos que serravam lanche no recreio, jogavam bolinha de gude a ''ganhis'', andavam descalços e que, apenas em ocasiões especiais - o tênis que tinha o poder de nos catapultar a uma casta superior - nós nos tornávamos os meninos de kichutes. Nesta parte de baixo, moravam os carinhas que aos domingos juntavam-se em frente à fábrica de doces Delícia, revirando os grandes tambores de lixo à procura de brinquedos recusados pelo critério industrial: índios sem braço, mocinhos pernetas, carrinhos sem roda, um zorro decapitado, soldados retorcidos... Pra gente era o máximo, talvez por ser a nossa cara.
(Fragmento de ''Meninos de Kichute'' de Márcio Américo)
Serviço
- Meninos de Kichute
Autor - Márcio Américo
Editora - Minuano
Quanto - R$ 14,90 (194 págs.)


