Mais conhecido por sua produção poética, Manuel Bandeira (1886 - 1968) também se dedicou a outras várias atividades literárias. Para pagar as contas, atuou como cronista, tradutor e organizador de antologias. Exerceu essas atividades com a mesma dedicação que abraçou a poesia.
Como organizador de antologias poéticas, produziu vários volumes abarcando tanto a literatura brasileira como a literatura universal. Um desses, ''Apresentação da Poesia Brasileira'', foi produzido a pedido de uma editora mexicana que pretendia apresentar a história da literatura brasileira aos leitores de países de língua espanhola.
A obra, lançada originalmente na década de 60, trazia um longo ensaio onde Bandeira apresentava a história da literatura brasileira de maneira particular. Dos primeiros textos produzidos pelos jesuítas portugueses que se instalaram em solo brasileiro no período colonial e o movimento concretista da década de 50. Além do ensaio, uma seleção de versos dos autores mais representativos das diversas épocas e escolas literárias.
''Apresentação da Poesia Brasileira'' acaba de ganhar sua edição brasileira pelas mãos da editora Cosac Naify. Uma das características interessantes da obra está em desenvolver uma breve história da poesia brasileira através da ótica de um poeta. Não pela da ótica de um teórico ou pesquisador acadêmico.
Na abordagem de Manuel Bandeira, o ponto de partida da literatura brasileira não estaria na famosa Carta de Pero Vaz de Caminha. Nem nos versos de José de Anchieta e outros jesuítas. O início estaria nas mãos de Gregório de Matos (1636 - 1695), em sua leitura desbocada do Brasil e seus odores disfarçados.
As escolhas realizadas por Bandeira são justificadas de maneira clara: ''Cumpre-se ainda esclarecer que a antologia complementar deste estudo está longe de abranger toda a riqueza do patrimônio poético do Brasil: muitas figuras de primeiro plano a que me referi no texto não figuram nela, o que de modo nenhum significa menosprezo ou esquecimento; a seleção foi feita no sentido de acusar o mais nitidamente possível evolução do sentimento e da técnica em nossa poesia''.
A Cosac Naify também acaba de colocar nas livrarias o segundo volume de ''Crônicas Inéditas'' de Bandeira. Se o primeiro volume, lançado em 2008, reunia textos escritos entre 1920 e 1931, o novo volume traz textos escritos entre 1930 e 1944. Nesse período, o poeta escreveu crônica para 45 periódicos distintos, jornais e revistas. Esse número pode oferecer uma ideia de sua vasta produção como cronista dos mais variados temas.
Bandeira escrevia tanto sobre uma exposição de Lasar Segall como sobre um livro com as aventura de Tarzan na floresta. Escrevia sobre o novo romance Oswad de Andrade bem como sobre as favelas cariocas. Passeava pela poesia moderna norte-americana, exposições fotográficas, a arte do palhaço, propaganda de banco de sangue, patrimônio histórico brasileiro e o que aparecesse pela frente.
''Crônicas Inéditas 2'' e ''Apresentação da Poesia Brasileira'' resgatam uma produção pouco conhecida de Manuel Bandeira. Oferecem um punhado de informações para compreender sua figura.

SERVIÇO
- Apresentação da Poesia Brasileira
Autor - Manuel Bandeira
Editora - Cosac Naify
Quanto - R$ 69 (504 pág. capa dura)
- Crônicas Inéditas 2
Autor - Manuel Bandeira
Editora - Cosac Naify
Organização e posfácio - Júlio CastaÀon Guimarães
Quanto R$ 69 (478 pág. capa dura)
''O meu engraxate predileto era um daqueles do ponto que fica à esquerda da entrada da Galeria Cruzeiro no largo da Carioca. Não que fosse melhor que os outros: os engraxates do Rio são todos iguais e não valem nada. Terra de engraxate é a Bahia, o Recife. Ali é que se sabe redourar o brasão de um sapato! Eu dava preferência ao engraxate daquele ponto do largo da Carioca por causa da vista que da sua cadeira se tinha sobre as fronteiras do Convento de Santo Antonio e da Igreja da Ordem Terceira de S. Francisco da Penitência.''
(Fragmento da crônica 'Favela de arranha-céus' que integra 'Crônicas Inéditas 2' de Manuel Bandeira)

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