O devaneio pode ser encarado como um animal selvagem percorrendo as entranhas da literatura. Um animal que reproduz todo o caótico funcionamento da mente humana em sua eterna batalha por uma possível ordem.
Correndo com liberdade, o devaneio é capaz de tudo e mais alguma coisa. Todas as associações, inclusive as pouco prováveis, podem aparecer nas mais variáveis direções. Em seu último romance, ''Rimas da Vida e da Morte'', o escritor israelense Amós Oz aposta todas as fichas na capacidade do devaneio percorrer as entranhas da escrita.
Lançado pela editora Companhia das Letras, ''Rima da Vida e da Morte'' narra o processo imaginativo de um escritor nas horas vagas, quando não está preso à intenção de criar uma obra. Revela os bastidores de um criador de histórias numa espécie de exercício ficcional a partir de estímulos do cotidiano real.
Amós Oz parte de uma idéia simples, devidamente explorada por dezenas de ficcionistas. Coloca um escritor no interior de um restaurante, esperando chegar o momento da palestra que proferirá num centro cultural próximo. Enquanto espera, bebe café, devora uma omelete e observa as pessoas ao redor.
A partir das características particulares das pessoas, o narrador imagina a história pessoal de cada uma delas. Monta o presente a partir da criação de um passado. A garçonete sedutora, por exemplo, se transforma na ex-namorada de um jogador de futebol que a abandonou para voltar para os braços da antiga noiva. Os dois fregueses que comem entre sussurros tornam-se capangas de serviços violentos e escusos. A história imaginada de cada figura se desdobra em outros vários personagens associados em conexões sobre conexões.
Quando o narrador se dirige à palestra no horário, passa a realizar o mesmo processo, criando histórias para cada homem e mulher da platéia. Todos com seus dramas particulares escondidos sob a atenção ou o desprezo pela literatura. Nesse redemoinho de devaneios, Amós Oz retira o chão onde o leitor coloca os pés. As distinções entre aquilo que o narrador descreve como realidade e aquilo que cria em sua imaginação praticamente desaparecem. Tudo se mistura a ponto de se tornar uma coisa só.
Um dos principais expoentes da literatura israelense contemporânea, Amós Oz nasceu em Jerusalém em 1949. Professor de literatura hebraica, atua há anos como militante em prol da paz entre árabes e israelenses. Entre seus romances publicados no Brasil estão ''Conhecer Uma Mulher'' (1992) ''A Caixa Preta'' (1993), ''Fima'' (1996) e ''Não Diga Noite'' (1997), ''Pantera no Porão'' (1999) ''O Mesmo Mar'' (2001), ''Meu Michel'' (2003) e ''De Amor e Trevas'' (2005) e ''De Repente nas Profundezas do Bosque'' (2007), todos lançados pela Companhia das Letras.
''Rimas da Vida e da Morte'' está longe de ser uma dos melhores obras de Amós Oz. Apesar da estrutura instigante, o romance se revela desprovido da poética narrativa característica da literatura do escritor. Se comparado, por exemplo, a romances como ''O Mesmo Mar'' e ''Caixa Preta'', ''Rimas da Vida e da Morte'' se revela um exercício literário. Um romance onde a idéia narrativa se apresenta maior que a própria narrativa.
Nas últimas páginas, Amós Oz desce as cartas do redemoinho de devaneios afirmando que as dezenas de personagens criados são na verdade um único personagem: o escritor. Para não deixar nenhuma dúvida, anexa ao final de tudo um apêndice com a relação de todos os personagens e suas características principais. Uma espécie de ordenação do devaneio. Amóz Oz simplesmente deixa o animal correr livremente para depois colocar uma coleira em seu pescoço.

  E essas são as principais perguntas: por que você escreve. Por que você escreve exatamente dessa maneira. Se você que influenciar seus leitores. E se quer, em que sentido tenta influenciá-los. Que função exercem suas histórias. Se você apaga e corrige o tempo todo ou deixa o texto fluir direto de sua inspiração. Como é ser um escritor famoso e como isso afeta a sua família. Por que você descreve quase que somente os lados negativos das coisas. Qual a sua opinião sobre outros escritores, quem influenciou você e quem você não suporta. Aliás, como você define a si mesmo? Como responde àqueles que o atacam, e como se sente quanto a isso? Como esses ataque mexem com você? Você escreve à caneta ou usa um teclado? Quanto você ganha mais ou menos com cada livro? Você vai buscar material para suas histórias em sua imaginação ou na vida real? Você tem horas fixas para escrever ou só escreve quando a musa lhe ordena? (...)
(Fragmento de ‘Rimas da Vida e da Morte’ de Amós Oz)


SERVIÇO
- Rimas da Vida e da Morte
Autor - Amós Oz
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Paulo Geiger
Páginas - 122
Quanto - R$ 31

mockup