LEITURA - A oração no fígado do inimigo
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de maio de 2008
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Algo como transformar fatos em sensações. Descrever uma árvore para sugerir que a terra que sustenta suas raízes possui uma lágrima nos olhos. Apresentar um diálogo para apontar que cada voz compreende apenas aquilo que interessa aos próprios pensamentos. Algo como transformar sensações em fatos.
Essas transformações passeiam com tranquilidade pela literatura da escritora norte-americana Flannery O'Connor (1925 - 1964). Sua particularidade em narrar histórias pode ser comparada à capacidade de um fotógrafo revelar aquilo que os olhos percebem, mas não enxergam.
Pouco publicada no Brasil, Flannery O'Connor tinha até recentemente apenas dois livros lançados em solo brasileiro, o romance ''Sangue Sábio'' (Editora Arx, 1990) e a coletânea de contos ''É Difícil Encontrar um Homem Bom'' (Editora Arx, 1991). Agora a Cosac Naify acaba de colocar nas livrarias ''Contos Completos'', volume que reúne toda a produção e Flannery como contista, gênero que consagrou a escritora.
Chamada ironicamente por alguns de ''Faulkner de Saias'', Flannery O'Connor, da mesma maneira que o escritor William Faulkner (1897 - 1962), produziu uma obra onde realiza um retrato da atmosfera da região sul dos Estados Unidos, um lugar onde os impasses raciais entre brancos e negros possuem raízes ásperas e profundas. As semelhanças entre a literatura de ambos não se estendem muito mais que isso. O'Connor coloca um peso significativo nas histórias que solicitam linguagem, Faulkner, por suas vez, coloca um peso maior na linguagem que solicita histórias.
Flannery O'Connor morreu com apenas 39 anos de idade. Passou a última década de sua vida residindo na fazenda de sua família, na companhia da mãe viúva. Vítima de uma doença degenerativa, como o pai, passou metade da vida com dificuldade de locomoção, caminhando apenas com o auxílio de muletas e próteses.
Segundo consta, nunca teve nenhum tipo de proximidade com o sexo oposto. Não teve namorados, noivos ou maridos. Segundo a lenda, teria morrido virgem. Um punhado de biógrafos se empenhou em encontrar algum vestígio homossexual em seu comportamento, mas quase nada encontraram. Flannery O'Connor foi apenas uma mulher austera e solitária, detentora de uma capacidade de observação pouco comum. Características que lhe renderam uma mítica aura de santidade.
Geralmente apontada como uma escritora católica que percorreu a atmosfera do protestantismo, a religiosidade ocupa em suas histórias o mesmo lugar das questões raciais. Acusada em alguns momentos de ''carola'' e ''racista'', sua literatura está muito além dessas questões simplistas e equivocadas. Excelente narradora, Flannery inseriu em suas histórias tudo aquilo que presenciou no cotidiano mais imediato, principalmente do ambiente rural. E o que presenciou não era nenhum paraíso florido.
A maioria das 32 histórias que compõem ''Contos Completos'' apresenta uma tese discreta em seu interior. A idéia de que as grandes revelações são possíveis apenas diante de algum tipo de ruído no cotidiano. Apenas quando algum elemento da ordem cotidiana sai do lugar, quando a estabilidade do chão firme é alterada, é que as revelações tornam-se viáveis. Apenas homens e mulheres atoladas na rotina possuem a oportunidade de alguma transformação, justamente através de algum tipo de problema que altera essa rotina. Em outras palavras, apenas os problemas, acompanhados de todo o tipo de tragédia, oferece uma percepção reveladora. Aquela que impele as pessoas a reverem suas vidas, seus pensamentos ou sentimentos.
A narrativa dos contos de O'Connor, num primeiro momento, é capaz de colocar o leitor no colo, oferecer um acolhimento necessário e anunciar uma história em seu ouvido. Uma história que deixa transparecer uma aura indefinida e de origem desconhecida. Aos poucos, passa a deixar claro que não está narrando histórias idealizadas de figuras harmônicas. Está, na realidade, anunciando histórias regidas por alguma dissonância. Uma fila de órfãos deslocados, aleijados atormentados, viúvas ressentidas com os filhos, crianças aprisionadas pelos avós, famílias de estrutura desgovernada, inocências atropeladas pela raiva, a pobreza mostrando suas garras, a riqueza exilada da verdade e muito mais.
O antagonismo entre o ambiente rural e o urbano também inunda os contos de O'Connor. Como água e óleo, os dois universos não se misturam. Da mesma maneira como não se misturam brancos e negros. Uma espécie de conflito latente e constante permeia as relações humanas que se estabelecem entre esses dois extremos. E toda tentativa de se estreitar a distância entre esses dois pólos, invariavelmente culmina em fracasso e tragédia.
Até a própria bondade não possui um desenho exato nas narrativas de ''Contos Completos''. Se, em algumas situações a bondade torna-se divina e humanamente viável, em outras situações, torna-se lógica e racional, como uma espécie de imposição externa. Nesse segundo contexto, a bondade assume a imagem de uma força insincera, provinda de um engano, detentora de uma falsidade subliminar que alimenta os mecanismos da tragédia.
Em Flannery O'Connor, os fatos e acontecimentos funcionam como uma oração no fígado do inimigo. Como igualmente funcionam como um soco no fígado do amigo. Nesse tumulto silencioso, as sensações atravessam a terra como náufragos. Tudo isso faz de sua literatura uma experiência contagiosa.
SERVIÇO
- Contos Completos
Autor - Flannery O'Connor
Editora - Cosac Naify
Tradução - Leonardo Fróes
Posfácio - Cristóvão Tezza
Páginas - 720 (capa dura)
Valor - R$ 79


