LEITURA - A odisseia do homem moderno
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 01 de fevereiro de 2017
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 

Amanhã, 2 de fevereiro, comemoram-se os 135 anos de nascimento do escritor irlandês James Joyce. Considerado o autor mais representativo do século 20, sua literatura influenciou grande parte da produção literária do século em todo o mundo.
Seu romance "Ulisses", publicado originalmente em 1922, ocupa o primeiro lugar em todas nas listas das principais obras literárias do século 20. Ironicamente, talvez seja o livro mais citado e menos lido do universo.
Sua fama de obra difícil, chata e complicada afugenta os leitores. O tamanho do livro, um verdadeiro catatau, também ajuda. Para piorar a fama, grande parte dos leitores que encaram a tarefa acaba desistindo logo nos primeiros capítulos.
"Ulisses" é uma obra literária que exige algum tipo de dedicação. O leitor que procura um romance tradicional, com enredo, com começo, meio e fim, fatalmente irá se decepcionar. Na verdade James Joyce criou uma nova forma para o gênero romance utilizando múltiplas linguagens retratando a transição do mundo para a modernidade.
Quando foi publicado, muita gente considerou que "Ulisses" representava a chamada "morte do romance". Isso porque, ao chegar ao limite das estruturas da linguagem, muitos teóricos acreditavam que seria impossível um escritor criar um romance mais inventivo que "Ulisses". Uma morte que, como tempo mostrou, não ocorreu porque os novos escritores incorporaram em suas narrativas as invenções literárias de James Joyce.
O romance é uma espécie de releitura livre da "Odisseia" de Homero. A figura de Ulisses (o nome latino de Odisseu), o grande guerreiro e rei, é substituída por um homem comum (Leopold Bloom). As guerras e aventuras marítimas são substituídas por caminhadas pelas ruas labirínticas da cidade de Dublin. Os dez anos de jornada são substituídos por apenas um dia (mais especificamente 18 horas). Ou seja, Joyce utiliza a alma da odisseia clássica para criar uma odisseia da modernidade.
"Ulisses" é formado por 18 capítulos compostos por 18 estilos narrativos diferentes. A cada capítulo o leitor precisa se ajustar a uma nova linguagem, uma sintaxe diferente, uma semântica distinta. O fluxo de consciência, técnica narrativa aprimorada por Joyce, está sempre presente reproduzindo o funcionamento da mente dos personagens. Sem falar na capacidade do escritor em unir duas palavras para criar uma terceira.
Tudo pode parecer sisudo, sério e carrancudo. Ledo engano. Há um humor espalhado por todas as partes do romance. Piadas, anedotas, humor negro, sarros e sátiras aparecem ao longo dos capítulos. Segundo os biógrafos, o escritor soltava constantes gargalhadas enquanto escrevia as páginas de "Ulisses".
Quando foi publicado em 1922, o livro não foi acolhido como obra genial como é conhecida hoje. Publicada originalmente na França, o romance foi proibido em países como Inglaterra e Estados Unidos. Os censores alegavam que em suas páginas havia descrições de flatulências, defecações e sexo. Nada mais do que aquilo que geralmente acontece no cotidiano de qualquer homem comum.
TRADUÇÕES
Traduzir a obra sempre foi tarefa complicada. No Brasil existem atualmente três traduções de "Ulisses". A primeira, realizada pelo filólogo Antônio Houaiss (1915 1999), publicada em 1966 pela editora Civilização Brasileira. A segunda, realizada pela professora Bernardina da Silveira Pinheiro, publicada em 2006 pela editora Objetiva/Alfaguara. A terceira, realizada pelo tradutor Caetano W. Galindo, publicada em 2012 pela editora Penguin.
Para entender melhor "Ulisses" é preciso levar em conta que tratasse de uma obra "work in progress" (obra em progresso) na própria designação do autor. Tudo começa com "Dublinenses" (1914) e "Retrato do Artista Quando Jovem" (1916), os dois primeiros livros de Joyce, onde começa a ser estruturado "Ulisses". A própria conclusão do processo de "Ulisses" está nas mãos do leitor como uma "leitura em processo". A modernidade em estado puro.
Serviço:

"Ulisses"
Autor James Joyce
Editora Civilização Brasileira
Tradução Antônio Houaiss
Páginas 789
Quanto R$ 99,90

"Ulisses"
Autor James Joyce
Editora Alfaguara
Tradução Bernardina da Silveira Pinheiro
Páginas 912
Quanto R$ 97,90

"Ulysses"
Autor James Joyce
Editora Penguin
Tradução Caetano Waldrigues Galindo
Páginas 1112
Quanto R$ 64,90


