LEITURA - A nova máscara do totalitarismo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de novembro de 2014
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Novidade é tudo. Quando uma palavra torna-se usada demais, basta ser substituída por outra. Basta criar um novo termo para dizer a mesma coisa.
Nem sempre precisa ser uma palavra sinônima. A ilusão é que conta. Numa boa jogada publicitária a falácia se transforma em verdade. A necessidade de novidades fabrica a ilusão de novas necessidades.
Empregado se converte em colaborador. Cliente vira parceiro. Preço se transforma em investimento. Trabalho vira processo colaborativo. Selvageria passa a ser empreendedorismo. Pão com ovo vira sanduíche gourmet.
Nessa substituição de termos e palavras, as grandes corporações são mestres. Em "O Círculo", o jornalista e escritor norte-americano Dave Eggers revela como o discurso falacioso das corporações privadas encontra eco nos indivíduos e órgãos públicos.
Lançado pela editora Companhia das Letras, o romance narra a trajetória de Mae, uma jovem ambiciosa que consegue emprego na empresa mais desejada do mundo, a Círculo, corporação que detém quase 90% do mercado das redes sociais e tecnologias da informação.
No decorrer do trabalho, as exigências que a empresa coloca para Mae aumentam a cada dia. Além do trabalho, e das metas de produção, ela precisa fazer parte, o tempo todo, das redes sociais da corporação. Afinal a Círculo não é mais chamada de "empresa", mas de "comunidade".
Conectados 24 horas, os funcionários não podem possuir vida privada, já que todas as informações veiculadas nas redes estão disponíveis a todos em tempo real. Uma espécie de "big brother" do mercado de trabalho.
Disposta a tudo para manter o emprego e ser adorada por todos, Mae aceita uma lavagem psicológica típica dos sistemas totalitários. Passa a viver "transparente". Graças a novas tecnologias milagrosas, é filmada 24 horas por dia e acompanhada em tempo real pelas redes sociais cada vez mais integradas.
Sua vida privada se torna pública sob o argumento de que, quando uma pessoa sabe que está sendo filmada, não faz nada errado, tem receio de ser desmascarada perante todos. Um recurso testado e aprovado nos políticos que passaram a ser filmados 24 horas por dia com objetivo de reduzir a corrupção.
Em "O Círculo", Dave Eggers faz uma espécie de versão de "1984", clássico do escritor inglês George Orwell, na época da tecnologia da informação e das redes sociais. E o final da história, todos podem imaginar, permanece o mesmo: a instalação de um novo totalitarismo.
Se o quadro pintado por George Orwell (1903 1950) era sombrio, o desenho apresentado por Dave Eggers é tenebroso. A ideia de vida privada passa a ser suprimida pelo compartilhamento excessivo de informações e pelos milhões de câmeras de segurança e drones mágicos.
Lançado no ano passado nos Estados Unidos, "O Círculo" se tornou um dos livros mais vendidos de 2013 no país. Talvez por mostrar como a informação se tornou um deus. E a tecnologia da informação um paraíso. Para cada maçã em todo esse sistema, há um punhado de serpentes escondidas embaixo do tapete.
Dave Eggers é comedido nas ferramentas da ficção científica que a narrativa pode estimular. Seu território é o presente utilizando as máscaras da grande festa à fantasia da nova febre da conexão. O toque é direto: um novo totalitarismo pode utilizar a máscara da democracia para construir seu discurso.
Serviço:
"O Círculo"
Autor Dave Eggers
Editora Companhia das Letras
Tradução Rubens Figueiredo
Páginas 526
Quanto R$ 54,50 e R$ 38 (e-book)


