Novidade é tudo. Quando uma palavra torna-se usada demais, basta ser substituída por outra. Basta criar um novo termo para dizer a mesma coisa.
Nem sempre precisa ser uma palavra sinônima. A ilusão é que conta. Numa boa jogada publicitária a falácia se transforma em verdade. A necessidade de novidades fabrica a ilusão de novas necessidades.
Empregado se converte em colaborador. Cliente vira parceiro. Preço se transforma em investimento. Trabalho vira processo colaborativo. Selvageria passa a ser empreendedorismo. Pão com ovo vira sanduíche gourmet.
Nessa substituição de termos e palavras, as grandes corporações são mestres. Em "O Círculo", o jornalista e escritor norte-americano Dave Eggers revela como o discurso falacioso das corporações privadas encontra eco nos indivíduos e órgãos públicos.
Lançado pela editora Companhia das Letras, o romance narra a trajetória de Mae, uma jovem ambiciosa que consegue emprego na empresa mais desejada do mundo, a Círculo, corporação que detém quase 90% do mercado das redes sociais e tecnologias da informação.
No decorrer do trabalho, as exigências que a empresa coloca para Mae aumentam a cada dia. Além do trabalho, e das metas de produção, ela precisa fazer parte, o tempo todo, das redes sociais da corporação. Afinal a Círculo não é mais chamada de "empresa", mas de "comunidade".
Conectados 24 horas, os funcionários não podem possuir vida privada, já que todas as informações veiculadas nas redes estão disponíveis a todos em tempo real. Uma espécie de "big brother" do mercado de trabalho.
Disposta a tudo para manter o emprego e ser adorada por todos, Mae aceita uma lavagem psicológica típica dos sistemas totalitários. Passa a viver "transparente". Graças a novas tecnologias milagrosas, é filmada 24 horas por dia e acompanhada em tempo real pelas redes sociais cada vez mais integradas.
Sua vida privada se torna pública sob o argumento de que, quando uma pessoa sabe que está sendo filmada, não faz nada errado, tem receio de ser desmascarada perante todos. Um recurso testado e aprovado nos políticos que passaram a ser filmados 24 horas por dia com objetivo de reduzir a corrupção.
Em "O Círculo", Dave Eggers faz uma espécie de versão de "1984", clássico do escritor inglês George Orwell, na época da tecnologia da informação e das redes sociais. E o final da história, todos podem imaginar, permanece o mesmo: a instalação de um novo totalitarismo.
Se o quadro pintado por George Orwell (1903 – 1950) era sombrio, o desenho apresentado por Dave Eggers é tenebroso. A ideia de vida privada passa a ser suprimida pelo compartilhamento excessivo de informações e pelos milhões de câmeras de segurança e drones mágicos.
Lançado no ano passado nos Estados Unidos, "O Círculo" se tornou um dos livros mais vendidos de 2013 no país. Talvez por mostrar como a informação se tornou um deus. E a tecnologia da informação um paraíso. Para cada maçã em todo esse sistema, há um punhado de serpentes escondidas embaixo do tapete.
Dave Eggers é comedido nas ferramentas da ficção científica que a narrativa pode estimular. Seu território é o presente utilizando as máscaras da grande festa à fantasia da nova febre da conexão. O toque é direto: um novo totalitarismo pode utilizar a máscara da democracia para construir seu discurso.

Serviço:
"O Círculo"
Autor – Dave Eggers
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Rubens Figueiredo
Páginas – 526
Quanto – R$ 54,50 e R$ 38 (e-book)

"A questão não é que eu não seja social. Sou social o bastante. Mas as ferramentas que vocês inventaram na verdade fabricam de modo artificial necessidades sociais excessivas. Ninguém precisa do nível de contato que vocês fornecem. Ele não serve para aprimorar nada. Ele não nutre ninguém. É que nem esses salgadinhos. Sabe como eles criam essas comidas? Eles determinam de forma científica exatamente quanto sal e quanta gordura precisam incluir para fazer a pessoa continuar comendo. Você não tem fome, não precisa comer, aquilo não traz nada para você, mas você continua devorando aquelas calorias vazias. É isso que vocês estão empurrando. A mesma coisa. Infinitas calorias vazias, mas equivalentes na forma sociodigital. E vocês calibram as doses para que o negócio fique igualmente viciante. Você sabe como é quando acaba de comer um saquinho de batatas fritas e fica com raiva de si mesmo? Você sabe que não fez nada de bom para si. É a mesma sensação e você sabe que é assim, depois de um porre digital. Você se sente exaurido, oco, diminuído. ("O Círculo", de Dave Eggers)
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