LEITURA - A normalidade desajustada
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de maio de 2006
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
O nome do escritor norte-americano Tennessee Williams (1911 - 1983) integra a lista das mortes mais insólitas. Aquelas mortes pouco prováveis, ou até mesmo inacreditáveis. Segundo consta, ele perdeu a vida engasgado por uma tampa de frasco de comprimidos.
Tennessee Williams era considerado um hipocondríaco inveterado. Tomava todo tipo de remédio, especialmente anfetaminas e barbitúricos. Certa noite, ao ingerir comprimidos para dormir, engoliu distraidamente a tampa do vidro. Engasgado, perdeu a capacidade respiratória. Como estava sozinho num quarto de hotel, morreu sufocado.
Se esse insólito e trágico fim não fosse real, poderia integrar perfeitamente as narrativas ficcionais criadas pelo próprio Tennessee Williams. Em suas histórias os personagens atravessam a existência com um objetivo irremediável: viverem seus problemas. Não buscam nenhuma possibilidade de resolvê-los por considerar que os dramas conferem sentido à existência.
Mais conhecido como dramaturgo, Tennessee ficou mundialmente conhecido como autor de peças teatrais como ''À Margem da Vida'' (1944), ''Um Bonde Chamado Desejo'' (1947) e ''Gata em Teto de Zinco Quente'' (1955) e ''A Noite do Iguana'' (1961). Textos que, posteriormente foram adaptados para o cinema.
Além do trabalho que exerceu como dramaturgo e roteirista de cinema, Tennessee deixou uma obra significava no gênero conto. A partir dessas narrativas, retirava a matéria prima para outros gêneros. Um panorama desse trabalho acaba de ser publicado pela Editora Companhia das Letras em ''49 Contos'', volume que reúne seus contos completos.
O livro reúne toda a produção de Tennessee Williams, apresentados na ordem cronológica em que foram escritos. Parte dos primeiros textos criados aos 18 anos e segue até o último, escrito aos 66 anos de idade. Alguns publicados em livros, outros em revistas, outros que permaneceram guardados na gaveta, inéditos.
Uma das principais características dos contos de Tennessee está em sua capacidade de apresentar a história completa de determinado personagens a partir de um fragmento de sua existência. Partindo de um episódio particular, a narrativa é capaz traçar, sutilmente, um desenho muito mais amplo que o simples episódio. Pode traçar tanto como seu amplo passado como seu possível futuro.
A partir da leitura de ''49 Contos'' é possível perceber duas abordagens na criação das histórias pelo escritor. Na primeira delas, os personagens mais definidos e marcantes são masculinos, principalmente dentro de uma temática homossexual. Numa época onde o tema era perigoso e evitado, Tennessee desenvolveu histórias onde o desejo assume a forma de um motor em contínuo funcionamento. Nesse processo de funcionamento, corpo precisa ser controlado para não se extinguir, para que alguma espécie de amor se manifeste.
Na segunda fase, as personagens que se revelam mais definidas e marcantes são femininas. São mulheres que enfrentam dificuldades em se ajustarem ao mundo. Geralmente solitárias, passam a fazer da vida uma tentativa de integração. Fadadas ao fracasso, essas tentativas cedem lugar ao movimento inverso, a aceitação de que o desajuste é uma normalidade e a solidão um destino. Nessas histórias também surge o elemento desejo com suas armadilhas e impulsos.
Em ''49 Contos'' cada história é o universo de uma pessoa. Um universo onde o conflito com o mundo torna-se inevitável. O próprio autor definiu o caminho de sua literatura com as seguintes palavras: ''É por amor que construo os personagens. Quanto ao mundo, trato-o a maior parte do tempo com desconfiança e ressentimento''.
Serviço:
- Livro ''49 Contos'', de Tennessee Williams. Editora Companhia das Letras, prefácio de Gore Vidal, tradução de Alexandre Hubner, Fernando de Castro Ferro, Jorio Dauster e Sonia Moreira, 694 páginas, R$ 49,00.
Porque os pecados do mundo são, com efeito, apenas suas imperfeições, suas incompletudes, e é a isso que os sofrimentos devem servir de expiação. A parede que deixou de ser feita numa casa por terem se acabados os tijolos, o cômodo que faltou mobiliar porque os recursos da família mostraram-se insuficiente esse tipo de incompletude normalmente é ocultado ou disfarçado por meio de soluções improvisadas. A natureza do homem está repleta dessas improvisações, concebidas por ele próprio para esconder sua incompletude. Ele sente que há uma parte sua que é como uma parede que faltou ser seguida, um cômodo que não pôde ser mobiliado, e faz de tudo para compensar isso. O uso da imaginação, lançando mão dos sonhos ou do propósito mais elevado da arte, é uma máscara que o homem idealiza para esconder sua incompletude. Assim também a violência, como na guerra entre dois homens ou alguns países, é uma compensação cega e insensata pelo que permanece informe na natureza humana. E ainda há outras formas de compensações. É a que subjaz ao princípio da expiação, a submissão do eu a tratamentos violentos impingidos por outros com o fito de assim purgar sua culpa.
(Fragmento de O Desejo e o Massagista Negro, que integra o livro 49 Contos de Tennessee Williams)


