Basta consultar qualquer dicionário para constatar que ''puta'' é a segunda palavra que mais tem sinônimos na língua portuguesa. Perde apenas para a palavra ''cachaça''. Seguindo o ranking de sinônimos, aparecem ironicamente as expressões ''dinheiro'' e ''diabo''.
O jornalista carioca Claudio Henrique elegeu esse termo vice-campeão de sinônimos como eixo central de seu livro ''Uma Rua Sem Vergonha''. Lançado pela editora Record, o volume reúne 15 contos onde a profissão mais antiga do mundo ocupa lugar de destaque. Histórias repletas de moças de conduta duvidosa que vendem prazeres aos reféns do desejo. Damas da noite de todos os tipos, origens e aspirações.
Para ambientar as histórias Claudio Henrique escolheu como cenário a rua Prado Junior, a popular ''PJ'', situada no bairro carioca de Copacabana. Um lugar que, durante a noite, abriga uma das maiores concentrações de prostitutas por metro quadrado do País. Uma verdadeira passarela para o imaginário masculino.
Em ''Uma Rua Sem Vergonha'' não há cenas carregadas de erotismo ou descrições de sexo. O foco das histórias narradas está nos processos conscientes e inconscientes das personagens, em suas relações com a realidade, carências e anseios. A prostitutas não são vestidas com mantos artificiais, mas com situações completamente humanas.
No conto ''Parapeito'', por exemplo, a personagem principal é uma velhinha que reside num pequeno apartamento da rua Prado Junior cuja janela dá para a calçada onde passeiam as garotas à espera de clientes. Seu prazer secreto é, após a novela, ficar olhando as moças e suas particularidades. Imagina que cada uma delas lembra alguma amiga da juventude. Assim, mentalmente, cria nomes e histórias para as moças. Com o tempo começa a se sentir íntima de cada figura e decide travar contato com o real. Rapidamente percebe que existe um imenso abismo entre imaginação e realidade.
Esse conto parece sintetizar a ideia discreta que permeia parte dos contos de ''Uma Rua Sem Vergonha'': o fosso existente entre o imaginário da prostituição e a realidade propriamente dita. Paralelamente, o autor trabalha com doses de humor para evidenciar as relações humanas onde o desejo aparece como moeda corrente ou cédula de troca.
Considerando o rico tema que Claudio Henrique tinha nas mãos, os contos abordam apenas uma pequena parcela do amplo leque que o imaginário da prostituição oferece. Sua aposta está na generalidade das formas que o assunto desperta, não na possibilidade de aprofundamento das histórias e suas implicações.
''Uma Rua Sem Vergonha'' é o segundo livro publicado por Claudio Henrique. Em 2007 lançou o volume de crônicas ''Botafogo - O Patinho Feio da Cidade'' onde reconstitui a história do bairro carioca de Botafogo.

Serviço
- Uma Rua Sem Vergonha
Autor - Claudio Henrique
Editora - Record
Quanto - R$ 37,90 (208 pág.)


''Sexta-feira era dia sagrado para Brenda. Ou Ludmila. Ou Marlene. Qualquer que fosse o passaporte para o anonimato, sexta-feira era legal. Dia de lucros certos, de garantir pagamento de boa parte das contas domésticas, de sobrar algum para comprar aquele minivestido rosa-pink que paquerara na lojinha do fundo de galeria em São João de Miriti, de amortizar parte da fatura atrasada do cartão, de tomar fôlego para poder respirar no fim do mês... Ainda era Ilcelene Maria quando beijou o filho na testa, pouco depois da novela das oito, aconselhando:
- Assiste o Globo Repórter, que vai aparecer um monte de bichinho. Você vai gostar.
Refestelada no sofá quase oliva, a mãe dela parecia um pufe amarfanhado e abandonado a esmo: banhas macias encaixando-se nas gastas almofadas. O olhar entre elas guardava quilos de cumplicidade, conformismo. E 500 gramas de tristeza. Há dois anos a mãe tinha dado chilique ao descobrir a ''profissão suja'' da filha. Mas agora apenas disfarçava o preconceito. Sabia de tudo e nada falava. Era o peso da necessidade''.
(Fragmento de ''Mignon'', conto que integra ''Uma Rua Sem Vergonha'' de Claudio Henrique)

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