A literatura universal está repleta de personagens imersos em tragédias pessoais. Figuras presas em seus próprios destinos lutando para encontrar uma fenda para escapar, mas que, invariavelmente, não encontram nenhum ponto de fuga.
Em seu romance de estreia, "O Doente", o jornalista André Viana desenha um desses personagens presos em sua própria tragédia familiar. Disposto a encontrar alguma saída e desenvolvendo a consciência de que não existem saídas.
O narrador (sem nome) do romance é um sujeito disposto a escrever sua história. Mas, diante da incapacidade do desafio, elege um jornalista para realizar o trabalho. Em encontros regulares, o sujeito conta abertamente sua trajetória ao gravador do jornalista acompanhado de uma garrafa de uísque.
O livro é formado por fragmentos dessas gravações e cartas complementares. Silêncios e pausas são as normas. Ao leitor cabe unir as peças e ocupar os silêncios como parte do jogo.
O centro da história se revela uma sucessão de tragédias familiares que determinam a existência do narrador. A morte do pai, vítima de câncer, é o pontapé inicial para que a doença seja o destino da família. Com a perda do pai, a esposa e os dois filhos caem num processo de codoença em escala ascendente.
Uma das cenas narradas por André Viana (um carioca que cresceu em Aracaju) vale a obra. A cena é a lembrança do aniversário de 11 anos do narrador. O garoto acompanha a doença do pai desde os oito anos e, no dia de seu aniversário de 11 anos, com uma festa mais do que bacana preparada dentro de um cinema, a tragédia acontece. O pai resolve morrer justamente nesse dia. A festa de aniversário do menino se transforma num velório.
A fatalidade capaz de deixar traumatizada qualquer criança assume um teor bem-humorado. O humor do narrador é o grande responsável por poupá-lo da codoença, que abate o irmão e mãe. Sua maneira de realizar a leitura dos fatos e consequências o concede algum tipo de imunidade. Não uma imunidade total, mas capaz de deixá-lo com a cabeça para fora do líquido enfermo que inunda tudo e todos.
Em seu depoimento, o narrador realiza todo tipo de associações na tentativa de rascunhar a verdade. Para isso utiliza uma série de citações de literatura, cinema e música. O mundo da arte assume o papel de gerador de referências para o entendimento da realidade e das batalhas interiores. Como se o infortúnio vestisse roupas com alguma nobreza.
Em "O Doente", lançado pela editora Cosac Naify, a doença é colocada na categoria de processo, não de cura. E nesse caminho o amor, em suas mais variadas formas, aparece como possibilidade de unguento. Como utopia, claro. André Viana chega até resgatar as ideias do francês François Fourier (1772 - 1837) através de frases como: "Não é de moderação que são feitas as grandes coisas"; ou "Se não é geral, a liberdade é ilusória".
O tom do romance é dado por sua epígrafe, repetida em várias situações da narrativa: "O homem é essencialmente um enfermo". Uma frase do escritor alemão Thomas Mann (1875 -1955) registrada no romance "A Montanha Mágica" que o narrador utiliza para dimensionar seu próprio destino e as doenças da família. A síntese seria algo como: "Toda doença é amor transformado".
Não é sem razão, e não sem motivo, que a literatura universal está repleta de figuras imersas em tragédias pessoais, personagens prisioneiros de seus próprios destinos. O ponto de fuga, ou a saída de incêndio, estaria justamente na dimensão que se atribui à prisão da tragédia familiar. E não existe saída, há apenas janelas para o ar entrar.

SERVIÇO
"O Doente"
Autor – André Viana
Editora – Cosac Naify
Páginas – 128
Quanto – R$ 29,90

Do diagnóstico à morte? Um ano e dez meses. Cravados. No dia dos meus onze anos. Eu brinco, mas, sério, imagina um moleque passar quase dois anos convivendo com o pai doente e esse pai dá de morrer justo no dia em que havia uma festa preparada pro moleque? A ideia era seguir pro cinema depois da aula com toda a minha turma e fazer uma sessão especial com pipoca, refrigerante, cachorro-quente. Minha mãe ficou uma semana me ajudando a escrever os convites. Uma doceira amiga da família preparou um bolo com uma carinha de palhaço toda feita de jujuba, olha que bonito. No dia da morte do meu pai, eu acordei com a musiquinha de "Parabéns pra Você" na cabeça. De repente, no meio da tarde, vem a notícia. Em plena aula. E o que é pra ser uma festa de aniversário vira um velório. Do próprio pai. E quando eu vejo, minha turma inteira em volta do caixão do meu pai, como se ele fosse o bolo, e aqueles círios. Minha mãe chorando, meu irmão chorando, e eu sem conseguir tirar aquela musiquinha da cabeça: "Parabéns pra você, nessa data querida...". Terror, meu amigo. Filme de terror. Você não pode imaginar. (Fragmento de "O Doente", de André Viana)
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