LEITURA - A neurose da traição
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de fevereiro de 2007
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Adultério. Uma palavra antiga e fora de moda. Embora tenha sido colocada de escanteio pela pós-modernidade, ocupou lugar de destaque na história da literatura. De Gustave Flaubert a Machado de Assis, o adultério foi tratado como tema polêmico e ao mesmo tempo sedutor.
Em seu mais recente romance, ''Naufrágo'', o escritor polonês Louis Begley revisita o tema deixando de lado a clássica adúltera para focalizar o adúltero moderno. A traição feminina evidenciada em inúmeros romances sede lugar à traição masculina.
Em ''Naufrágo'', lançado pela Companhia das Letras, Louis Begley parte de uma solução recorrente na literatura. Nada mais que a história de sujeito está sentado sozinho na mesa de um bar quando aparece outro sujeito, igualmente sozinho, e senta ao seu lado. Ao sentar, começa a contar a história de sua vida. Uma história que é capaz de contar apenas para um estranho. A verdade só pode ser dita a um desconhecido. Um estranho que após ouvir sua história, desaparecerá na multidão.
O sujeito que apresenta sua história ao desconhecido chama-se North. É um escritor norte americano de renome internacional, cheio da grana, admirado pela crítica e louvado pelos fãs. Casado com Lydia, uma respeitada médica, mantém uma vida conjugal exemplar. O drama começa quando, numa estada em Paris, conhece uma jovem jornalista chamada Léa.
Léa é uma espécie de ''lolita'' crescidinha com hormônio explodindo pelos poros e uma coleção de perversões sexuais guardadas no bolso da mini-saia. Possui dúzias de amantes espalhados pela Europa, a maioria homens de meia idade com rechonchudas contas bancárias.
Em pouco tempo Léa e North estão se enroscando em camas de hotéis, elevadores, becos, praças, banheiros, enfim, em qualquer lugar possível para aplacar o desejo. North acredita tratar-se de uma aventura passageira, um fogo que promete poucas semanas de duração. Não quer, de nenhuma maneira, abalar seu casamento ou provocar alguma mágoa na esposa.
Na visão de North, o adultério só é errado se descoberto. Assim, toda sua atenção está voltada em ocultar sua traição da esposa. Mas Léa passa a perturbá-lo da maneira mais sedutora e esperta possível. Mesmo com a consciência de que precisa deixar de se encontrar com a amante, não consegue fugir do prazer ela lhe proporciona. Não consegue ficar longe do corpo de Léa e ao mesmo não quer colocar comprometer seu casamento. Sua grande paranóia reside no medo que sua esposa descubra tudo.
Em ''Naufrágio'', Louis Begley relata todo esse processo num tom repleto de suspense. O leitor passa pela constante impressão que alguma coisa está para acontecer durante a narrativa. Sempre existe algum cheiro de tragédia no ar. Uma tragédia sempre adiada, deslocada para frente, uma tensão ascendente prolongada no interior da cabeça do narrador, North, e também na narrativa propriamente dita.
Louis Begley prolonga tanto a tragédia anunciada que, quando ela acontece, provoca um efeito diluído. Não surpreende em relação ao suspense insistentemente expandido. Provoca muito mais uma constatação evidente do que uma surpresa. Grande parte da narrativa evidencia o processo, não sua conclusão.
Em ''Naufrágo'', o autor, há décadas radicado nos Estados Unidos, pronuncia um jogo entre realidade e representação. Deixa evidente que embora o narrador tenha como profissão o ato de contar história, ele não consegue transformar sua neurose real em ficção, os fatos próximos em literatura. Embora defenda a tese de que toda ficção possui elementos reais da existência do escritor, em seu adultério isso se torna inviável. Seria torná-lo descoberto, convertê-lo em algo errado.
Nascido em 1934, Louis Begley, além de romancista, atua como advogado em Nova York. Possui vários romances publicados no Brasil, entre eles, ''O Homens Que se Atrasava'', ''Despedida em Veneza'', ''Infância de Mentira'', ''Olhar de Max'' e ''Sobre Schmidt''.
Serviço:
- Livro ''Naufrágio'' de Louis Beghey, Editora Companhia das Letras. Tradução de Sergio Tellaroli, 240 páginas, R$ 42,50.
Se eu não podia dizer que amava Léa, era certo que sentia por ela alguma coisa virtualmente indistinguível do amor - a única diferença sendo aquela inexorável, imposta por meu casamento. Que algum dia eu fosse deixar Lydia estava fora de cogitação: não havia ninguém com quem eu tivesse entendimento tão perfeito. Tudo isso soa muito corriqueiro, mas garanto a você que era, ou pelo menos parecia ser, muitíssimo real. Léa? Talvez fosse uma ninfomaníaca, se essas criaturas míticas existem de fato. Mas qual o mal que ela estava fazendo? Naquele momento eu não conseguia encontrá-lo. Pelo contrário: achava que o amor pelo próprio corpo e pelo corpo de outra pessoa - o que, afinal, constituía a essência da proeza dela - era uma coisa boa, não má. Pela mesma razão, parecia-me que o que ela e eu fazíamos não podia ser alvo de condenação, a não ser que eu não conseguisse proteger Lygia de toda e qualquer mágoa ou humilhação.
(Fragmento de 'Naufrágo' de Louis Begley)


