LEITURA - A morte em crise
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de dezembro de 2005
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A morte é uma certeza inegável. E, talvez, justamente por isso, o homem procura fugir dessa certeza. Nessa tarefa, é capaz de desenvolver as mais mirabolantes armadilhas para manter a morte afastada, fora do foco de visão.
E se um dia a morte ficasse cheia dessas intermináveis armadilhas? E se, cansada de ser odiada, resolvesse dar um tempo dos homens? E se um dia, a morte deixasse de existir enquanto certeza?
Foi a partir dessa possibilidade, de característica fabular, que o escritor português José Saramago criou seu novo romance, ''As Intermitências da Morte''. Lançado pela Editora Companhia das Letras, parte da idéia de que a morte não agrada grandes multidões. Não funda impérios econômicos nem dinastias políticas. Comove os vivos e simplesmente enterra os que deixaram de viver. Seu campo de atuação é prático, bem como sua subjetividade, e tão vasto quando as estrelas no céu. E para não vê-las, basta fechar os olhos.
Em ''As Intermitências da Morte'', José Saramago transforma a morte em personagem principal de uma fábula sobre a vida. Uma personagem que, inserida na história, torna-se igual aos homens, mesmo sendo completemente diferente deles.
Nos últimos dez anos a escrita do escritor português, ganhador no Prêmio Nobel de 1998, se constituiu numa literatura de temas. Seus livros estão estruturados a partir de um assunto específico a ser desenvolvido. Para isso, Saramago precisar desenvolver uma história que dê sustentação ao assunto escolhido.
''As Intermitências da Morte'' segue esse método narrativo. Método que pode ser considerado tanto um estilo particular como perpetuação de uma fórmula funcional. Em outras palavras, a cada novo livro a literatura de Saramago torna-se mais e mais previsível. A estrutura é mantida em cada novo tema, em cada novo assunto. O interessante do que sustenta essa estrutura é justamente o conteúdo que Saramago apresenta. Está sempre dizendo coisas, abordando questões pertinentes, realizando reflexões, o que confere à sua obra um caráter abrangente, uma espécie de ''humanismo pós-globalização''.
Em ''As Intermitências da Morte'', a morte decide mostrar sua importância na vida dos homens. Para isso, resolve não vitimar nenhuma habitante de um país específico a partir do primeiro dia do ano. Os homens simplesmente deixam de morrer. Não deixam de sofrerem acidentes, nem de ficarem doentes, muito menos de envelhecessem, apenas a morte deixa e levá-los para o cemitério.
No início, entre a população, nasce um certo prazer de eternidade. Sentimento que, em pouco tempo, dá lugar a problemas e mais problemas. Primeiro as funerárias começam a falir, em seguida a igreja perde seu poder de persuasão, depois os hospitais entram em colapso pelo número de doentes terminais que não morrem, em seguida os asilos ficam superlotados, as seguradoras começam a limitar os benefícios à idade máxima de 80 anos, etc.
Ao longo dos meses fica claro que a morte é necessária. Vital até mesmo para conferir sentido à existência. Sem sua presença, nasce o caos. Nesse quadro, morrer passa a ser um processo clandestino e algumas famílias começam contrabandear seus moribundos para outros países, onde a morte ainda existe. A prática, gerenciada pela organização da ilegalidade, coloca em ameaça o poder constituído do estado.
No meio desse caos, a morte decide voltar a agir e consumar seu poder. Sua tática torna-se avisar, com antecipação, qual cidadão está literalmente com o pé na cova e estará sob sete palmos em poucos dias. Então, o drama social sede lugar ao tormento psíquico.
José Saramago humaniza a morte. Como se ela, por permanecer tanto tempo convivendo com os homens, presenciando medo e perplexidade nos olhos dos mortais, decida fazer parte do universo humano. Argumento recorrente na clássica mitologia grega, onde os deuses desprezam a humanidade até o belo dia que entram em contato com as sutilezas sentimentais dos humanos. A partir desse dia, os deuses caem de quatro, descem de seus pedestais e compreendem que, apesar de idiotas completos, os homens sentem emoções absurdamente interessantes, belas e incontroláveis. E claro, invejáveis.
''As Intermitências da Morte'' é um romance previsível em quase todas suas etapas. Sua estrutura é o desenvolvimento de um tema, descrições de seus ângulos, apresentação de suas variáveis, desenhos de possibilidades de soluções. Argumentos exclusivamente mentais sequenciais, e por isso, previsíveis, inundam a narrativa. Nas últimas páginas, Saramago, mesmo mantendo a obviedade, humaniza a morte com elegância. Salva a pátria, salva a vida e salva a morte.
Serviço:
- Livro ''As Intermitências das Morte'' de José Saramago, Editora Companhia das Letras, 208 páginas, R$ 35,00.


