LEITURA - A morte e suas infindáveis ilusões
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de maio de 2018
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 

"Este é um livro da morte. O livro das intermitências naturais da vida. O livro das finitudes do corpo. É também o símbolo dos renascimentos, dos ecos. Do espaço sem axiomas, nos minutos de falta de fôlego, dos vácuos cerebrais."
Estas palavras aparecem logo na primeira página de "A Pequena Mão da Criança Morta", novo livro da escritora londrinense Samantha Abreu que será lançado nesta quarta-feira (9), 19h, no Sesc Londrina Centro. Palavras que anunciam uma poética severa, sem retórica sobre os tombos e as finitudes silenciosas e ao mesmo tempo barulhentas da vida.
Autora de "Fantasias Para Quando Vier a Chuva" (2011) e "Mulheres Sob Descontrole" (2015), Samantha Abreu possui textos publicados em várias antologias brasileiras. Em sua nova obra, parece ter chegado até a encruzilhada que leva à maturidade literária. E segue em frente.
Em "A Pequena Mão da Criança Morta", lançado pela editora Penalux, quase nada está fora de lugar. Fazendo uso de uma poética imagética, a autora mergulha em impressões distantes de qualquer tipo de máscara. Sejam estéticas, perceptivas ou sentimentais.
A seguir, Samantha Abreu fala sobre seu novo livro e revela que as mulheres não escrevem mais "para agradar alguém, nem a si mesmas".
Seu livro anterior, "Mulheres Sob Descontrole", era carregado de humor e trivialidades. Por outro lado "A Pequena Mão da Criança Morta" se revela um livro forte, severo e profundo. O que aconteceu?
Na verdade, o livro de contos "Mulheres Sob Descontrole" foi um desvio na minha produção, que sempre foi poética. Os contos tinham essa intenção do humor desde sempre, de ser irônico com as visões estereotipadas que se tem das mulheres. Expor o ridículo para que ele fosse realmente visto como ridículo. Foi quase uma brincadeira narrativa. Quanto ao "A Pequena Mão da Criança Morta", eu estava debruçada há anos para desenvolver uma poesia mais madura, mais imagética talvez. Eu estava com tudo isso numa incubadora esperando a hora em que esses poemas se uniriam com alguma sinergia entre eles.
A morte parece ser um tema recorrente em "A Pequena Mão da Criança Morta". O que levou você a abordar essa temática?
Eu tenho me sentido incomodada com a temática do corpo há algum tempo. O corpo físico e também filosófico. Tenho me interessado demais pela forma como o corpo concentra todas as tensões da sociedade, como ele incomoda, como a finitude dele é inquietante e como a expressão viva do corpo também é condenada. O corpo se torna o centro de expectativas e de frustrações do ser. Tudo passa pelo corpo. Ao questionar isso, comecei a imaginar um corpo que acaba, um corpo que deixa de estar presente aqui e de viver as coisas que precisam ou querem ser vividas. Só que a gente deixa de viver coisas o tempo todo, a gente é soterrado, massacrado por inúmeros fatores impeditivos de vivermos plenamente. E isso não se trata apenas de uma morte física. É uma morte diária, é todo dia o fim de algo que representa a vida. Além desse incômodo, vivi algumas perdas de pessoas próximas e, também, fui profundamente afetada pela imagem do garoto sírio morto na praia, aquele corpo que representava tantas mortes subjetivas, mortes ideológicas, mortes de todo o tipo. Aquilo ficou dentro de mim de uma forma que não consegui manifestar de outra forma que não fosse pela poesia.
Simultaneamente à morte, o renascimento também aparece como temática. Você considera os dois lados de uma mesma moeda?
Eu me dei conta de que morrer e nascer acontece todos os dias com uma pessoa. A gente não deixa de viver apenas quando morre, a gente passa por términos e recomeços o tempo todo, e isso é, também, um tipo de morte. Assim como o sono, o orgasmo, o próprio nascimento quando o primeiro ar estoura os pulmões. São mortes de algo para que outra coisa recomece. Essas situações colocam o corpo em sua exaustão ou em seu pleno desligamento, para que depois ele volte. Então sim, viver é morrer todos os dias e renascer sob algum aspecto todos os dias.
"A Pequena Mão da Criança Morta" se revela uma obra impiedosa. Os poemas fogem completamente ao senso comum da poesia feminina. Qual sua intenção?
A vida é isso que está aí no dia a dia de todo mundo. A gente morre e sobrevive, morre e sobrevive. Isso é bonito, não é piedoso. E justamente por ser bonito, tenho buscado uma linguagem anterior, uma vontade de tirar a palavra de sua função. Já me disseram que o livro é imagético, que as palavras pressurizam o corpo. Acho isso bom, porque não se trata de uma forma comum de comunicação cotidiana. Se essa crítica for verdadeira, a palavra atingiu outro patamar. Isso me agrada. É o desejo de atingir o que Adélia Prado coloca quando fala que o instante poético é como segurar um peixe vivo com as mãos: "puro susto e terror". E o senso comum sobre poesia feminina precisa aprender que não existe senso comum quando se fala de autoria feminina. As mulheres estão escrevendo e cada vez mais não escrevem para agradar alguém, nem a si mesmas.

Serviço:
"A Pequena Mão da Criança Morta"
Autora Samantha Abreu
Editora Penalux
Páginas 56
Quanto R$ 32
Lançamentos:
- Dia 6 de maio, 19h, no Sesc Londrina Centro (Rua Fernando de Noronha, 264)
- Dia 12 de maio, 19h, no Londrix - Festival Literário de Londrina (Museu Histórico de Londrina, Rua Benjamin Constant, 900)
[left]Fragmentos
DA PRIMEIRA VEZ QUE MORRI
Na primeira vez que morri,
nada havia que fizesse suave a pancada no chão.
De cima,
só você e céu
fechei os olhos
- evitando o momento,
aquele
aquele momento
já não tinha
sonho, tinha
nenhum pesadelo.
Era vazio. Era leve. Era frio.
No corpo um suspiro
e a entrega
irremível
de um renascimento explodindo em seu peito.
-o0o-
A PEQUENA MÃO DA CRIANÇA MORTA
Eu não me esqueci da criança
que não terá mais a conhecer desmesuras ou
as possibilidades
imortais
do tempo.
Eu penso na mão
tão miúda: quando sonho ou alucino.
Ainda lá,
apodrecendo na franja das ondas.
As dores da história
chicoteando seu corpo pequeno.
Não me encarreguem da memória
da criança.
Não me intitulem guardiã
de seu choro ancestral, do seu
corpo afogado
e devolvido,
enquanto rezas ressoam nos vãos da história.
(Poemas que integram "A Pequena Mão da Criança Morta" de Samantha Abreu)[/left]


