No último dia 9 de setembro, Fausto Wolff bateu as botas aos 68 anos de idade. Bem-humorado, dizia que nunca iria abotoar o paletó, sua vocação estava em bater as botas provendo um tremendo barulho. O escritor estava internado com hemorragia intestinal no Hospital São Lucas, em Copacabana. Entrou em coma e morreu de insuficiência respiratória. Curiosamente, nem o jornal carioca em que Wollf trabalhava como colunista deu muita atenção ao fato.
Fausto Wolff era um sujeito barulhento. Aquele tipo de homem que dá um bife para entrar numa briga e um frigorífico para não sair dela. Famoso pela sua grande vocação de esponja, era capaz de absorver doses cavalares de álcool com a voracidade de um náufrago.
Alguns meses antes de sua morte, sofreu um enfarte que descreveu da seguinte forma: ''Outro dia quase bati as botas. Fechado o expediente, fiquei bebendo uísque enquanto olhava o mar. À medida que bebia, mais o mar se agitava, me agitando também. Tive uma idéia genial e voltei ao computador, mas não conseguia escrever as frases direito. Era sempre 'aprotaledo' pelas 'pavrolas'. Retornei à janela, fiquei vendo o mar e tendo idéias geniais. Bebi mais algumas doses de uísque e, quando minha mulher voltou do trabalho contei-lhe o que ocorrera. Ela: 'Você teve um princípio de enfarte ou um princípio de isquemia' e, sob meus discretos protestos, arrastou-me ao hospital''.
Enquanto médicos e enfermeiras discutiam seu quadro, Wolff fugiu do hospital para tomar uma dose no bar da esquina, fumar um cigarro e comer um sanduíche de pernil. Recapturado pela ciência médica, foi proibido de beber, fumar, comer, procriar e discutir com adolescentes. Qualquer descuido seria fatal. Assim, viveu seus últimos meses de vida tomando guaraná com gelo e discutindo com o espelho.
Esquerdista eterno, Fausto Wolff foi um dos criadores do jornal ''O Pasquim'' em 1969. Exilado pela ditadura militar, percorreu vários países da Europa antes de voltar ao Brasil e retomar suas atividades jornalistas. Embora se declarasse carioca, nasceu na pequena cidade de Santo Ângelo, Rio Grande do Sul, em 1940. Aos 18 anos mudou-se para o Rio de Janeiro abraçando a profissão de jornalista e escritor. Nessa época, trocou seu nome de batismo Faustin von Wolffenbuttel pelo pseudônimo de Fausto Wolff.
Um dos editores, ao lado de Ziraldo, da extinta revista ''Bundas'' publicou duas obras significativas na década de 80 ''O Acrobata Pede Desculpas e Cai'' e ''O Homem e Seu Algoz''. Depois permaneceu um bom tempo longe da literatura até publicar ''À Mão Esquerda'' (Civilização Brasileira, 1996), romance que recebeu o prêmio Jabuti. O livro se tornou um marco na literatura de Fausto Wolff. Pode ser considerado uma síntese de sua escrita que reflete a condição individual e coletiva do homem nos agouros da História.
Sua obra está marcada por fortes elementos autobiográficos. Tanto em ''À Mão Esquerda'', como seu outro romance mais significativo ''O Lobo Atrás do Espelho'' (Bertrand Brasil, 2000), Fausto Wolff parte de sua história pessoal para compor sua visão do século 20. Uma visão que tanto focaliza os desejos individuais como as aspirações de uma justiça social. Algo como a utopia do corpo e a utopia das massas no mesmo rodar da roleta.
O cartunista Jaguar, companheiro de copo e de ''Pasquim'' de Wolff, chegou a afirmar que a literatura de Fausto era similar àquela criada pelo escritor norte-americano Charles Bukovski. Fatalmente uma comparação proferida após a décima dose depois da saideira. São literaturas completamente distintas, percorrem caminhos visivelmente diferentes.
Entre as obras deixadas por Fausto Wolff estão ''Em Nome de Deus'', ''Sandra na Terra do Antes'', ''Carta (com Pretensão de Contos) de um Escritor aos Estudantes'', ''Gaiteiro Velho'', ''Olympia'' e ''A Imprensa Livre de Fausto Wolff'' - grande parte delas encontradas apenas em sebos. Seu último livro, ''A Milésima Segunda Noite'' foi publicada em 2005 pela editora Bertrand Brasil.

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