Realidade e ficção podem ser encaradas como água e óleo cada uma assentada em seu canto, ocupando um espaço delimitado. Colocadas lado a lado, criam um limite determinado onde o respeito mútuo é consenso. Consciente de seus respectivos lugares e afazeres, não se metem na vida uma da outras.
Pelo menos era isso deveria ocorrer através das rédeas da teoria. Na prática, principalmente no mundo contemporâneo, os limites entre realidade e ficção foram rompidos. A imagem de elementos como água e óleo abandona o campo de visão multiplicando uma espécie de invasão. A realidade invadindo a ficção e a ficção invadindo a realidade. Nesse contexto, atribuir a noção de verdade à realidade e de mentira à ficção passa a ser um equívoco.
Em seu novo livro, ''Adorável Criatura Frankenstein'', o poeta paulista Ademir Assunção trabalha justamente com a extinção das fronteiras entre realidade e ficção. Lançado pela Ateliê Editorial, o romance expõe os processos em que uma se transforma em outra graças aos absurdos que a realidade pode chegar e a conversão da ficção em realidade que a mídia e os veículos de comunicação de massa realizam.
O protagonista de ''Adorável Criatura Frankenstein'' atende pelo nome de Eu. Ao seu redor aparecem personagens chamados Você, Ele, Ela, Eles, Elas, Nós e Vós. Misturando personalidades reais e personagens imaginário, o romance utiliza a ironia para promover a confusão entre o real e o irreal. As situação mais malucas são inseridas dentro da realidade para retirar dela suas verdadeiras cores.
Eu é um escritor carioca que, durante uma viagem a São Paulo para participar de um entrevista num programa de televisão sobre literatura, se vê envolvido em situações absurdas. Seduzido pelas novidades, perde a noção daquilo que é real e daquilo que é irreal. Nesse turbilhão começa a levantar a dúvida de que sua própria existência seria ficcional, obra de algum pessoa ou de algum ser supremo.
Ao longo da narrativa, Ademir Assunção faz um jogo entre o absurdo da ficção e o absurdo da realidade. E nesse jogo satiriza o grau de parentesco que existe entre eles. Um dos recursos utilizados pelo autor é inserir elementos externos ao texto como componentes incorporados pela própria narrativa. Assim, insere, por exemplo, ao longo da história, a música de Arrigo Barnabé, a dramaturgia de Samuel Beckett, a mitologia de tribos indígenas e uma entrevista com um monge zen-budista.
Repleto de referências do mundo propagado pela mídia, ''Adorável Criatura Frankenstein'' é fundado numa estrutura fragmentária. Tudo indica tratar-se de uma tentativa de revelar a própria fragmentação da arte e da sociedade contemporânea, como seus melhores valores em franca degradação.
O final da obra reserva algumas revelações. Uma delas está em demonstrar que o protagonista Eu, que sempre se considerava dono de seu destino, é na realidade a criação de alguém no campo da ficção. Eu, o personagem, se revela como uma criatura nascida pelas mãos de um criador que mantém o controle de sua existência. Nesse ponto, tem o início do lendário embate entre criador e criatura, uma alusão ao título do romance. E quando a criatura se rebela contra o criador, para se libertar de sua servidão, o embate de vida ou morte torna-se inevitável.

Serviço:
- ''Adorável Criatura Frankenstein'' de Ademir Assunção, Ateliê Editorial, apresentação de Nelson de Oliveira, 232 páginas, R$ 31,00.

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