Cinco dias antes do Natal um grupo de homens reuniu crianças de vários orfanatos para uma cerimônia natalina. Não havia presentes nem guloseimas. No local, apenas um boneco tamanho natural de Papai Noel com a velha roupa vermelha, barriga e barba branca.
Diante dos olhares das crianças, os homens passaram a espancar a figura do bom velhinho. Chutes, pontapés e pauladas. Um autêntico linchamento de Noel. Ao final de tudo, colocaram fogo no que restou do boneco.
Pode até parecer roteiro de história em quadrinho, mas a cena descrita acima é real. Trata-se de um fato verídico. Aconteceu em 1951, na cidade francesa de Dijon, nas escadarias da Catedral. Os homens eram padres católicos protestando contra a acentuada mercantilização do Natal.
O antropólogo francês Claude Lévi-Strauss aproveitou esse curioso e polêmico episódio para escrever o ensaio ''O Suplício do Papai Noel'', publicado originalmente em 1952. No texto Lévi-Strauss realizava uma reflexão sobre o significado da imagem do bom velhinho, de sua origem arcaica ao mundo moderno.
''O Suplício do Papai Noel'' acaba de ganhar sua edição brasileira numa homenagem da editora Cosac Naify aos 100 de idade de Lévi-Strauss comemorados em 28 de novembro último. Trata-se de um pequeno e elegante livro que aborda os ritos natalinos a partir de uma ótica abrangente. Noel é tratado como um sentimento que pré-existia na afetividade dos homens e apenas encontrou uma maneira de se expressar ao longo do tempo até assumir a forma atual.
A mercantilização do Natal, uma genuína criação dos norte-americanos, não recebe muita atenção na reflexão do antropólogo. O ponto mais importante está na conexão entres os ritos de passagens das culturas indígenas e a figura mitológica do Papai Noel nas sociedades urbanas e industriais.
Na visão de algumas culturas indígenas as crianças são consideradas seres que vivem no mundo dos deuses. Elas passam a habitar o mundo dos vivos, o mundo da realidade, a partir de ritos de passagem. Nesses ritos, elas deixam o mundo do imaginário para habitar o mundo adulto, o mundo real. Nas palavras do antropólogo, na idéia do Papai Noel ocorre algo semelhante. As crianças que vivem a fantasia do velhinho que entrega presentes habitam o mundo dos deuses. E quando deixam de acreditar na figura divina de Papai Noel também passam por um rito de passagem. Deixam de habitar o imaginário para colocar os dois pés no real, no mundo dos vivos de carne e osso. Em qualquer possibilidade, o rito será sempre doloroso, representará o rompimento com os deuses.
A vivência do mito do bom velhinho pertence apenas às crianças. Os adultos estão fora do jogo. Para Lévi-Strauss não interessa apontar e justificar as razões pelas quais as crianças gostam da figura do Papai Noel. O que interessa, na verdade, são as razões pelas quais os adultos o inventaram.
Nascido em 1908 e criador da antropologia estrutural, Claude Lévi-Strauss é louvado como um dos maiores intelectuais do século 20. Um dos raros pensadores que conseguiu apagar 100 velinhas colocadas num bolo de aniversário. Em ''O Suplício do Papai Noel'' aborda um tema distante de seu trabalho teórico e acadêmico. O lado generoso de um velhinho sem barba branca, trenó ou roupa vermelha.

Fragmento de ‘O Suplício do Papai Noel’ de Claude Lévi-Strauss
Observemos os ternos cuidados que temos com Papai Noel, as precauções e os sacrifícios que aceitamos para manter seu prestígio intocado junto às crianças. Não será porque, lá no fundo de nós, ainda persiste a vontade de acreditar, por pouco que seja, numa generosidade irrestrita, numa gentileza desinteressada, num breve instante em que se suspende qualquer receio, qualquer inveja, qualquer amargura? Sem dúvida, não podemos compartir plenamente a ilusão, mas o que justifica nossos esforços é que, alimentada por outrem, ela nos oferece pelo menos uma oportunidade de nos aquecer à chama acesa nessas jovens almas. A crença que ocultamos em nossos filhos de que os brinquedos vêm do além oferece um álibi ao movimento secreto que nos leva a ofertá-los ao além, sob o pretexto de dá-los às crianças. Dessa maneira, os presentes de Natal continuam a ser um verdadeiro sacrifício à doçura de viver, que consiste, em primeiro lugar, em não morrer.
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SERVIÇO
- O Suplício do Papai Noel
Autor - Claude Lévi-Strauss
Editora - Cosac Naify
Tradução - Denise Bottmann
Páginas - 56 (capa dura)
Quanto - R$ 25

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