LEITURA - A morte da palavra
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de fevereiro de 2005
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Normalmente a literatura é considerada a arte da escrita. Essa é a regra. Mas existe um discreto movimento subterrâneo, dentro do próprio universo literário, que defende exatamente o contrário. A literatura, nesse caso, seria a arte da não-escrita.
O escritor espanhol Enrique Vila-Matas decidiu investigar esse movimento desgovernado que circula pelos corredores do mundo das palavras há muito tempo. O resultado da sombria viagem está em ''Bartleby e Companhia'', seu mais recente romance lançado pela Editora Cosac & Naify.
''Bartleby e Companhia'' não é um romance comum. Primeiro porque sua narrativa é formada apenas de notas de rodapé. Notas de um livro que não aparece impresso. Na realidade, um livro que não existe, ou pelo menos não foi escrito. Segundo porque mistura os gêneros ficção e ensaio sem nenhum pudor.
A obra é narrada por um escriturário que luta para tornar-se escritor. O drama é que ele não consegue escrever. Por mais que tente, estude e se esforce, as palavras simplesmente não acontecem. Define seu estado como ''síndrome de Bartleby'' e embarca através da tortuosa aventura de escrever sobre a incapacidade de escrever.
Para definir a síndrome, o narrador se inspira em Bartleby, personagem de um conto do escritor norte-americano Herman Melville (1819 - 1891). Trata-se de um pacato funcionário burocrático que, um belo dia, decide não fazer nada. Passa a morar no escritório em que trabalha como um não-funcionário. Não obedece nenhuma ordem, não cumpre nenhuma função, apenas permanece no lugar se opondo de modo inerte à qualquer produtividade.
O narrador de ''Bartleby e Companhia'' passa então caçar todos os escritores cometidos pela ''síndrome de Bartleby'' ao longo da história da literatura. Criadores que nunca conseguiram concretizar a obra que imaginavam. Poetas e prosadores que desistiram da literatura para cultivar o silêncio. Seu disfarçado objetivo, ao realizar tal levantamento, é justamente inserir-se dentro desse seleto grupo de escritores.
Henrique Vila-Matas vai além de realizar uma viagem pela chamada ''literatura do não''. Incorpora, através da metalinguagem, a estrutura do romance-ensaio no tema trabalhado. Ao compor um livro apenas com notas, transforma em fantasma a própria obra ao qual as notas se referem. Dessa maneira, a própria estrutura do romance é um exemplo de ''não-literatura''.
Um dos escritores em evidência na literatura européia atual, agraciado com vários prêmios, Enrique Vila-Matas começou a ser publicado no Brasil recentemente. ''Viagem Vertical'' foi sua primeira obra lançada em português, no início de 2004. Para o final de 2005 a Cosac Naify pretende publicar outros dois romances, ''O Mal de Montano'' e ''Paris Não Acaba Nunca''.
''Bartleby e Companhia'' é um obra incomum. Consegue demonstrar a força da literatura através de sua recusa. Ao demonstrar que um dos componentes mais interessantes da literatura é o escritor não conseguir ou se recusar a escrever, proclama a morte da palavra. Uma morte prepara justamente para representar a sua incomensurável existência em constante processo de mutação.
A ''literatura do não'' estaria longe da escrita sem leitores, ou do original escondido na gaveta. Trata-se da incapacidade de concretizar em palavras uma idéia, estados de sentimentos e percepções obliquas. Trata-se, no estado mais radical, no abandono completo da escrita. A desistência de um desejo, a exclusão de um dom. Enfim, a compreensão de que a arte é uma bobagem, mesmo que necessária.
O delicioso paradoxo de Vila-Matas é que, para existir, a ''literatura do não'' depende da existência da ''literatura do sim''. Como um pássaro depende do céu.
Serviço:
- ''Bartleby e Companhia'' de Enrique Vila-Matas, Editora Cosac & Naify, tradução de Maria Carolina de Araújo e Josely Vianna Baptista, 192 páginas, R$ 39,00.


