Na lista dos livros mais divertidos da história da literatura, ''Zazie no Metrô'' ocupa lugar de destaque. Impossível alguém percorrer suas páginas sem rir das façanhas de Zazie, a garotinha mais desbocada do planeta. Impossível não se divertir com as desconcertantes perguntas da menina que veio ao mundo para confundir todos aqueles que cruzam seu caminho.
Romance do escritor francês Raymond Queneau, ''Zazie no Metrô'' acaba de receber uma bela edição pelas mãos da editora Cosac Naify. Além de um projeto gráfico que transforma o livro em objeto estético, traz uma tradução que preserva a linguagem original do autor, algo capaz de deixar os professores de língua portuguesa com os cabelos em pé.
Basicamente constituído de diálogos, o romance está todo pautado na linguagem oral. Raymond Queneau reproduz na grafia das palavras o som que elas possuem nas conversas de rua, nos diálogos mais cotidianos. A primeira edição brasileira de ''Zazie no Metrô'', publicada pela editora Rocco em 1985, não deu a devida atenção à linguagem desenvolvida pelo escritor.
Escrito em 1959, ''Zazie no Metrô'' narra a história da pequena Zazie, uma garotinha que vive no interior da França e vai passar alguns dias em Paris aos cuidados do tio Gabriel. A única coisa que ela deseja fazer na cidade é conhecer o metrô. O problema é que, no dia em que ela coloca os pés em Paris, tem início começa uma greve dos metroviários.
Assim, tudo aquilo que acontece com Zazie, em sua pequena temporada em Paris, é pautado pelo improviso, pelo acaso. Para remediar o desapontamento, Gabriel decide levar a sobrinha para passear pela cidade. Mas, a cada tentativa, as situações mais absurdas acontecem. O passeio da menina termina numa boate gay com o tio Gabriel dançando no palco. As situações são completamente hilárias. Até um papagaio invade os acontecimentos repetindo uma única frase ao longo do livro todo: ''Vocês só falam, só sabem falar''.
Zazie, a única figura infantil do romance, assume a imagem da razão dentro do universo adulto completamente desprovido de razão. Ela representa a imagem da criança que invade o mundo com a sinceridade na ponta da língua. Sua especialidade é espalhar coleções de saias justas, com uma coleção de palavrões disponíveis. Zazie torna-se aquela que deseja resposta sobre as contradições dos adultos, aquela que inunda os marmanjos de perguntas que eles não conseguem responder.
''Zazie no Metrô'' está todo estruturado na invisível contradição humana. Tanto as contradições mais cotidianas quando as contradições mais filosóficas e estruturais. Queneau expõe tudo isso através de um ótimo humor, sem nenhuma espécie de peso ou ressentimento. Apenas nas últimas linhas do romance o autor pisa no calo. Voltando para casa, Zazie afirma que a única coisa que fez em seu passeio foi envelhecer.
Raymond Queneau (1903 - 1976) é considerado um dos grandes autores da literatura francesa do século 20. Trafegando entre a erudição e a vanguarda, foi um dos fundadores do OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle), grupo que reuniu escritores como Georges Perec e Italo Calvino, que procuravam fazer da literatura uma infinita arte de combinação de linguagens. Sua mais alucinada obra nesse caminho é ''Exercícios de Estilo'' (Editora Imago, 1995). Nela, Queneau apresenta 99 versões diferentes para uma única história. Uma espécie de miniconto escrito de 99 maneiras diferentes, utilizando linguagens distintas, sem perder nenhum detalhe do conteúdo.

Serviço
- Zazie no Metrô
Autor - Raymond Queneau
Editora - Cosac Naify
Tradução - Paulo Werneck
Posfácio - Roland Barthes
Quanto - R$ 45 (202 pág.)

Dondekevemtantofedô, Gabriel se perguntou, irritado. Não é possível, não tomam banho nunca. Não dá para entender. Mas que cheiro ruim.
Gabriel sacou da manga um lencinho de seda violeta e assoou o narigão.
- De onde vem esse fedor? - disse a senhoria em voz alta.
Ela não estava pensando em si mesma ao dizer isso, não era egoísta; queria falar era do perfume que emanava daquele senhor.
- Isso, ô tia - respondeu Gabriel, rápido no gatilho -, é Barbouze, um perfume da Fior.
- Devia ser proibido empestear o mundo desse jeito - continuou a dondoca, convencida de que tinha razão.
- Se eu entendi direito, você acha que o seu cheiro natural é milhor que o das rosas. Pois você está redondamente enganada, viu, tia?
- Ouviu isso? - disse a dona para o sujeitinho ao lado, provavelmente aquele que tinha o direito legal de trepar com ela. - Ouviu como esse porco me desrespeitou?
O sujeitinho examinou o gabarito de Gabriel e pensou: é um tipo armário, mas o bom dos armários é que eles nunca aproveitam a própria força, seria uma covardia. Bancando o valentão, gritou:
- Você fede, hein, gorila.
- Quero ver você repetir, vamos lá.
- Repetir o quê?
- Kekefoikevocêdiss.
- Eu não permito que me chame de você.
(Fragmento de ''Zazie no Metrô'' de Raymond Queneau)

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