LEITURA - A memórias das almas
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Marcos Losnak <br> Especial para a Folha2 
As gerações mais novas talvez nunca tenham ouvido falar de Pedro Nava. Quem sabe só nas sonolentas aulas de literatura brasileira. Quem sabe pelo escritor ter se dedicado a um gênero literário completamente fora de moda, o memorialismo. Mas se alguém consultar a lista dos livros mais vendidos na década de 70, fatalmente encontrará seu nome em grande parte delas.
Pedro Nava é um escritor singular na história da literatura brasileira. Começou a escrever seu primeiro livro quando tinha 65 anos de idade. Ao morrer em 1984, disparando uma bala contra a própria cabeça, havia publicado seis volumes: ''Baú de Ossos'' (1972), ''Balão Cativo'' (1973), ''Chão de Ferro'' (1976), ''Beira-Mar'' (1978), ''Galo das Trevas'' (1981) e ''O Círio Perfeito'' (1983). Os rótulos de ''melhor memorialista brasileiro'', ou ''o Proust brasileiro'' grudaram em sua imagem.
Seus livros agora começam a ser reeditados pela editora Companhia das Letras num novo projeto organizado por André Botelho, professor da Universidade Federeal do Rio de Janeiro. Os dois primeiros volumes, ''Baú de Ossos'' e ''Balão Cativo'' chegam às livrarias a partir do dia 4 de março. A edição vem acompanhada de reproduções de documentos pesquisados no arquivo do escritor. São manuscritos, fotografias, cartas, anotações, mapas, retratos, desenhos e originais.
Em ''Baú de Ossos'' Nava retrata a história de seus antepassados e sua infância entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro. Em ''Balão Cativo'' sua adolescência igualmente entre os dois territórios. Hoje há uma unaminidade de que Pedro Nava (1903 - 1984) não criou uma obra meramente memorialista. Em sua narrativa há memórias, biografias, relatos históricos, autobiografia, história do cotidiano e uma leitura do Brasil da primeira metade do século 20. Uma das características de seus relatos está em reproduzir em palavras a memória cotidiana dos cinco sentidos no passado. A memória da audição, do olhar, do tato e do olfato.
Típico mineiro criado no Rio de Janeiro, Pedro da Silva Nava nasceu em Juiz de Fora em 1903. Nascido numa tradicional família de médicos, seguiu a profissão atuando ao longo de cinco décadas. Foi amigo íntimo da nata dos homens das letras mineiros radicados no Rio de Janeiro como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Fernado Sabino, Rubem Braga e Otto Lara Resende.
O suicídio de Nava até hoje está imerso numa nebulosa de mistério. O fato é que na noite de 13 de maio de 1984, o escritor, segundo depoimento de sua esposa, recebeu um misterioso telefonema. Logo após a ligação, saiu para uma caminhada pelo bairro da Glória, centro do Rio de Janeiro. Sentou num banco de praça, tirou um Taurus 32 do bolso e deu um tiro na cabeça. Estava trabalhando no sétimo volume de suas memórias (o livro incompleto, ''Cera das Almas'' foi somente publicado 2006 pela Ateliê Editorial).
Ninguém entendeu nada. Nos dias seguintes surgiu o boato de que Nava havia cometido o suicídio porque estava sendo chantageado por um garoto de programa do qual era cliente. Nenhum jornal, nenhuma revista, rádio ou televisão deu uma nota sobre o assunto. Silêncio total.
Com o passar das décadas, algumas informações começaram aparecer. O jornalista Zuenir Ventura, por exemplo, em seu livro ''Minha História dos Outros'' (Planeta, 2005), conta que na época do suicídio de Nava atuava como chefe da sucursal carioca da revista ''Istoé''. Para investigar o boato escalou os jornalistas Arthur Xexéo e José Castello. O boato foi confirmado pelo próprio acusado da chantagem.
Diante do escândalo de uma possível homossexualidade reprimida de Pedro Nava, tradicional e respeitável senhor de família, Zuenir Ventura optou por não abalar sua imagem. Optou pelo silêncio auxiliado pela opinião da família e amigos do memorialista. Exemplo que foi seguido por toda imprensa brasileira sem exceção. O fato é que após quase 30 anos, o mistério permanece. Quase um tabu. A própria família, para a reedição dos seis volumes, barrou a veiculação de qualquer linha sobre o assunto.
Serviço:
Baú de Ossos
Autor Pedro Nava
Editora Companhia
das Letras
Páginas 492
Quanto R$ 54,50
Balão Cativo
Autor Pedro Nava
Editora Companhia
das Letras
Páginas 424
Quanto R$ 52,00
Sons que tremiam, não apenas no ouvido, mas fazendo vibrar o tambor da barriga e que tinham curiosa analogia com ocheiro e aparencia cruel das visceras que o fissureiro anuciava com aquele toque solene e funerário. Os fígados cor de vinho, as tripas douradas e lustrosas, miolos numa brancura de estearina, mocotós de marfim, os corações roxos como mangará de cacho de banana. Os rins. Gentileza de tripeiro: os bofes, fetto gelatina cinzenta e rosada que el trazia para o banqete dos cachorros.. Obrigada freguês! Obrigado freguesa! O carrasco de mãos sangrentas levava à boca sua trompa de chifre e saia, numa nuvem de moscas e de apelos lancinantes e plenos como das fanfarras em torno dos cadafalsos. Logo depois passava gritando outro verdugo. Rato, rato, rato! Corria de dentro das casas o tropel das mulatas, meninos, patroas, moleques e crioulas com suas ratoeiras e todos despejavam conteúdo da armadilha dentro de uma espécie de sorverteira enorme que continha um líquido que dava fumaça sem ferver. O homem, em vez de receber, pagava. Duzentos réis a ratazana, um tostão por camundongo.
(Fragmento de Baú de Ossos de Pedro Nava)


