O que há em comum entre o suicídio de Kurt Cobain e uma garota fugindo do genocídio étnico de Ruanda em 1994? O que há em comum entre o único show do Nirvana realizado em São Paulo e a militância religiosa dessa mesma garota após a sobrevivência?
Essa conexão aparentemente improvável está no novo romance do escritor gaúcho Michel Laub, "A Maçã Envenenada". A obra é o segundo volume da trilogia iniciada com "Diário da Queda" (Companhia das Letras, 2011), o mais substancial dos cinco romances publicados pelo autor.
O argumento da trilogia é quase ensaístico: os efeitos individuais das catástrofes históricas. Nada mais de como os desastres históricos interferem na vida individual das pessoas. Aquilo que interessa é o impacto, os reflexos, que esses desastres operam na vida pessoal do indivíduo. A dor individual, intransferível, não a dor coletiva.
Lançado pela editora Companhia das Letras, "A Maçã Envenenada" traz o relato de um sujeito tentando passar a limpo um passado que o atormenta. Em 1993, o jovem de Porto Alegre divide o tempo entre o serviço militar e uma banda de rock. Sua namorada, vocalista da banda, o propõe um desafio: os dois assistirem ao show do Nirvana em São Paulo.
O rapaz precisa escolher entre seguir com a namorada e desertar do exército ou seguir as obrigações da vida - o que implicaria perder a namorada. Uma decisão que assume uma dimensão intrincada, cheia de teias labirínticas, que teria profundas consequências por toda a existência.
A narrativa de Michel Laub alterna passado e presente num mesmo fluxo. Memória, percepção dos fatos e leitura de sentimentos trafegam entre tempos distintos para compor o panorama de uma descoberta. A percepção de que a contribuição que as pessoas oferecem às nossas vidas (pela convivência, pelas relações, conflitos e entendimentos) não é pequena. É maior do que podemos admitir. Os impactos históricos seguem caminho semelhante.
Michel Laub aponta para uma das dimensões do impasse contemporâneo. De um lado a notícia do suicídio de Kurt Cobain, líder do Nirvana, um sujeito com a adoração de multidões. De outro lado uma anônima garota de Ruanda que, para sobreviver ao genocídio que matou 800 mil pessoas, vive por 90 dias escondida num minúsculo banheiro. Uma recusa da vida. Uma afirmação da vida. Tudo num mesmo mês, num mesmo ano, 1994.
Esses dois lados de uma mesma moeda atravessam as reflexões do personagem principal de "A Maçã Envenenada". Não de maneira direta, mas através de analogias silenciosas. E há a necessidade de escolha entre uma percepção imediata e outra mais elaborada. Algo entre a fuga e o mergulho.
"A Maçã Envenenada" também pode ser considerado um romance sobre o amor. O amor em seu momento mais duvidoso: onde ainda não há a compreensão do que seja o amor e daquilo que ele representa ao longo do tempo. E a fatal percepção de que o passado é o único elemento palpável de uma relação amorosa. E o presente apenas um período de construção da memória.

Serviço:
"A Maçã Envenenada"
Autor – Michel Laub
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 120
Quanto – R$ 29,50 e R$20,50 (e-book)

As lembranças de um namoro podem se resumir a pouca coisa, uma viagem, um passeio de bicicleta, a inscrição numa camiseta, os apelidos secretos e piadas internas feitas de termos que só fazem sentido para as duas pessoas, um dicionário de sentimentos e o museu de um período da vida, mas nada disso importa diante do que Valéria significou. Não importa o prato preferido dela. Não importa os filmes que ela gostava de ver. Não importa o jeito como ela tossia, se espreguiçava, o movimento das pernas ao caminhar, o formato das unhas e o gosto da boca dela nas várias horas do dia, os sons, o cheiro, as manias, as reações previsíveis e imprevisíveis, porque é como se essa memória existisse para explicar não o passado dela, que foi enterrado no dia do show do Nirvana, e assim o futuro do lado que sobreviveu: quem eu sou de verdade, a pergunta que faço desde 1993, as coisas que fiz e as pessoas que encontrei e as decisões tomadas numa existência previsível com uma única exceção. (Fragmento de "A Maçã Envenenada" de Michel Laub)
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