LEITURA - A maldição da eternidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de abril de 2006
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A imortalidade é um sonho gravado na mente dos homens. Pode ser encarada como uma espécie de salvação diante da inevitabilidade da morte. Mas também pode representar uma espécie de condenação diante da voracidade do tempo.
O escritor argentino Adolfo Bioy Casares (1914 - 1999) trabalha com a segunda opção em ''A Invenção de Morel'', sua obra mais cultuada. Publicada originalmente em 1940, quando o autor tinha 26 anos, o romance se tornou um clássico. Apresenta o enigmático argumento de que a preservação continuada da existência é sempre conquistada através da condenação da alma.
''A Invenção de Morel'' já foi chamado de ''literatura fantástica'', ''romance policial'', ''ficção científica'', ''relato de aventura'', ''romance de engenho'' e outras coisas mais. Algo que apenas deixa claro tratar-se de um romance que absorve várias abordagens literárias e que, independente das classificações, aponta o dedo na direção de um intrincado conteúdo universal.
O livro é o relato de um criminoso que, condenado à prisão perpétua, foge para uma isolada ilha do Pacífico. Desabitado, o lugar possui a fama de deter algum tipo de maldição, um lugar onde ninguém se atreve colocar os pés. Por isso, o esconderijo ideal para um fugitivo.
Na ilha (uma clara alusão à ''Ilha do Dr. Moreau'', de H. G. Wells), o condenado descobre intrigantes construções abandonas. Com o passar do tempo começa a ver misteriosos habitantes nessas construções que, de uma hora para outra, tornam-se suntuosas e habitadas.
Tentando preservar sua solidão, o fugitivo se esconde dos habitantes do lugar como pode. Isso até se apaixonar por uma das pessoas, uma linda mulher chamada Faustine que todo fim de tarde senta à beira de um penhasco para apreciar o pôr-do-sol.
Quando decide se revelar a Faustine, percebe que ela não percebe sua existência. Como se ele fosse um fantasma. Na sequência, entende que nenhum dos habitantes do lugar dá sinal de perceber sua existência. Atormentado, o fugitivo perde a noção da realidade, como se a loucura e o delírio ocupassem sua mente.
Aos poucos entende que tudo se trata de uma invenção criada por um homem chamado Morel. Tudo fruto de uma intrincada máquina que grava a realidade e é capaz de reproduzi-la com total fidelidade preservando todos os detalhes sensoriais. Seu objetivo é enganar a imortalidade.
Nesse ambiente, o fugitivo passa a viver em duas ilhas. Uma real, sujeitas às ações do tempo, e outra eterna, completamente imune ao tempo. Através dessa dualidade, sua razão deixa de ser precisa para se tornar atormentada. Mas a história de Bioy Casares vai além. Coloca ao narrador um dilema: viver a realidade incessantemente corroída pelo tempo, ou viver a projeção de uma realidade, mesmo que ilusória, prolongada pela eternidade.
''A Invenção de Morel'' acaba de ganhar uma nova edição pelas mãos da Editora Cosac Naify, após décadas ausente das livrarias. Embora seja um nome sempre citado como referência da literatura argentina, poucas obras de Bioy Casares foram lançadas no Brasil. A Cosac Naify promete lançar, em breve, outros livros do escritor como ''Diário da Guerra do Porco'' e ''Histórias Fantásticas''.
Nascido em Buenos Aires em 1914, Casares começou sua carreira literária na adolescência graças ao apoio financeiro da família. Viveu sem grandes preocupações monetárias entre os círculos literários da Argentina e da Europa. Em parceria com o escritor Jorge Luis Borges (1899 - 1986), do qual foi grande amigo, publicou cinco livros. Sua produção envolve romances, contos, textos teatrais e ensaios.
Em ''A Invenção de Morel'', Bioy Casares não deixa o dilema do narrador em aberto. Seu amor por Faustine, ou pela imagem de Faustine, elimina a dúvida. Sua opção aponta para o foco da solidão. Se a aparência induz a alguma felicidade, que essa aparência seja eterna. E a eternidade, sorrateiramente, pode ser uma verdadeira maldição.
Serviço:
- Leitura ''A Invenção de Morel'' de Adolfo Bioy Casares, Editora Cosac Naify, tradução de Samuel Titan Jr., apresentação de Jorge Luis Borges, posfácio de Otto Maria Carpeaux, 136 páginas, R$ 39,00.


