LEITURA - A maldade do bem
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
A violência é um animal irracional que procria como os ratos. Se multiplica pelas noites, pelos becos, pelas luas. Como animais selvagens, as crias crescem. E uma hora ou outra se rebelam contra aqueles que as geraram. O sangue volta ao sangue para gerar mais sangue.
Esse é um dos argumentos de "Os Filhos da Noite", novo romance do escritor norte-americano Dennis Lehane lançado pela editora Companhia das Letras. Um dos grandes nomes do romance policial contemporâneo, Lehane se aventura pela primeira vez no universo dos gângsteres.
"Os Filhos da Noite" é ambientado durante o período da Lei Seca, final da década de 20 e começo da década de 30. Narra a história de Joe, um bandido que fazia questão de frisar para meio mundo que não era um gângster, apenas um fora da lei.
Filho caçula de um conceituado capitão de polícia de Boston, Joe se desliga do caminho traçado pelo pai e cai na marginalidade. Começa a praticar assaltos e trabalhar para um dos bandidões da cidade no tráfico de bebida e na jogatina.
Num de seus trabalhos é apanhado pelo gângster rival e surrado impiedosamente. A polícia também coloca as mãos nele e o espanca ainda mais. Com o consentimento do pai, é espancado por policiais até entrar em coma.
Joe é condenado e conclui sua formação criminal num presídio, onde precisa enfrentar as mais severas provas. Quando é libertado, torna-se o braço de um gângster na Flórida atuando no tráfico de rum de Cuba.
Embora imerso no universo dos gângsteres norte-americanos (todos filhos de imigrantes italianos e irlandeses), o personagem criado por Dennis Lehane foge do padrão clássico. Joe é um fora da lei que não faz uso da violência exacerbada para manter o poder. É um bandido quase bonzinho.
Sua tese é de que o mal, em algumas situações, pode gerar o bem. E de que o bem, em outras situações, pode gerar o mal. Alguns atos que aparentemente parecem maldades dão origem a boas consequências. O inverso também seria correlato. Alguns atos que parecem bons dão origem a coisas terríveis.
Em pouco tempo os chefões acima de Joe percebem que o sujeito perdeu a ambição. Contenta-se apenas com o tráfico de bebidas e esquece de arrecadar mais dinheiro com a prostituição, a jogatina e tráfico de drogas. Então a violência se volta contra ele. O ditado "negócios sujos atraem pessoas sujas" se materializa com toda a força na frente de Joe.
A tese de que atitudes fora da lei são capazes de trazer coisas boas para as pessoas começa a encontrar eco em outra prática: a revolução. Para monopolizar o tráfico de rum de Cuba, Joe se associa aos revolucionários que desejam derrubar o governo cubano. Ambos utilizam os mesmo métodos para atingirem objetivos completamente diferentes. A violência se apresenta como a melhor ferramenta.
"Os Filhos da Noite" se revela um romance diferente dos outros criados por Dennis Lehane. Romances como "Apelo Às Trevas" (2003), "Sagrado" (2004) "Gone, Bay, Gone" (2005) e "Dança da Chuva" (2006), todos protagonizados pelo casal de detetives Patrick Kenzie e Karen Nochols com histórias que revelam a potencialidade de violência do ser humano contemporâneo e, ao mesmo tempo, a extrema carência emocional das pessoas. "Os Filhos da Noite" está mais próximo da obra mais ambiciosa do escritor, o romance policial histórico "Naquele Dia" publicado em 2009.
Nascido em 1965, na cidade de Boston, Lehane é conhecido pelos leitores brasileiros pela autoria de "Sobre Meninos e Lobos", romance transformado em filme por Clint Eastwood, e por "Paciente 67", levado às telas por Martin Scorcese com nome de "Ilha do Medo".
Serviço:
"Os Filhos da Noite"
Autor Dennis Lehane
Editora Companhia das Letras
Tradução Fernanda Abreu
Páginas 480
Quanto R$ 49,50


