LEITURA - A malandragem milenar
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de março de 2008
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Diz a lenda que Titus Caius Petronius, após se envolver numa conspiração política contra Nero, foi obrigado a cometer suicídio. Isso a quase dois mil anos atrás, em 65 d.C. Petronius, mais conhecido como Petrônio, se recolheu em seu leito e cortou o pulso da mão esquerda. Com a mão direita escreveu um livro em que satirizava as mazelas da vida da cúpula romana.
O manuscrito, nomeado de ''Satyricon'', se tornou um dos registros mais ricos dos costumes da Roma Antiga. O livro chegou até os dias de hoje apenas fragmentado, boa parte dele se perdeu no caminho. Considerado o primeiro romance da literatura ocidental, foi escrito no latim vulgar, a língua falada nas ruas e becos do império romano, diferente da grande maioria dos registros da época escritos em latim clássico.
Ninguém consegue explicar o motivo que levou a obra, mesmo fragmentada, sobreviver aos séculos e séculos. Passou até pelas mãos dos monges copista e inexplicavelmente não foi queimada na fogueira das heresias contra a moral católica. Isso porque, além de ser uma obra satírica, é um genuíno livro de ''sacanagem''. Uma das raras obras de ''sacanagem'' que sobreviveu há dois milênios.
''Satyricon'' narra as peripécias de Encólpio, Gitão e Ascilto, três rapazes que formam um triângulo amoroso pautado pela libertinagem e pelo ciúme. Gitão, o mais novo, um adolescente afeminado de uma beleza ímpar, é disputado pelos outros dois e também por uma multidão de outros senhores barbados. Transitando de lugares em lugares, de cidade em cidade, os três representam a malandragem romana. Seja pelas ruas, escolas, casas de banho, banquetes ou templos, sempre arrumam uma maneira de viver vagabundeando à custa dos ricos. Tudo regado à muito vinho, luxúria, golpes, safadezas e malandragem.
A editora Cosac Naify está colocando nas livrarias uma nova edição de ''Satíricon'', com tradução realizada diretamente do original latino realizada por Cláudio Aquati. Há duas décadas a obra era encontrada apenas em sebos através de outras duas versões, uma publicada pela editora Abril Cultural comercializada em bancas de jornais e outra lançada pela editora Brasiliense. Esta última, com tradução do poeta Paulo Leminski, publicada em 1985, a primeira edição brasileira realizada diretamente do latim, tornou-se uma referência literária.
O universo narrado por Petrônio, é descrito da seguinte maneira por Cláudio Aquati no posfácio da edição: ''Jovens devassos, estudantes vagabundos, homens de letras aproveitadores, inoportunos, incompetentes, velha e velhos viciosos, detestáveis homens de negócios, religiosos impudentes, novos-ricos vulgares, libertos daninhos, mulheres de alta classe e de desejos vulgares, proxenetas, cidadãos sequiosos de heranças e dispostos a tudo''.
''Satíricon'' é um dos primeiros clássicos da história da literatura. Existem citações de suas páginas espalhadas nos escritos de centenas autores das mais variadas épocas. Até um episódio hilário dos quadrinhos de Asterix e Obelix retrata um dos capítulos mais famosos da obra de Petrônio, o chamado ''Banquete de Trimalquião'', onde estão presentes como penetras Encólpio, Gitão e Ascilto. O cineasta italiano Federico Fellini realizou, em 1969, uma versão cinematográfica da obra. Pelas bizarras imagens de orgias, o filme foi classificado como de ''forte impacto destinado a público específico''.
A sátira de Petrônio passeia tanto pelos campos sociais quanto culturais de um império que começa a dar os primeiros sinais de decadência. Sua narrativa permanece fresca apesar do tempo. Se encaixa nas mais variadas épocas possíveis por retratar a eterna malandragem. A malandragem atemporal, tanto dos fortes como dos fracos. Dos pobres e dos ricos. Dos feiosos e dos bonitos.
Fragmento de Satíricon de Petrônio
Ele ainda não tinha soltado tudo o que tinha para falar quando uma bandeja com um enorme de um porco ocupou toda a mesa. Tratamos de admirar aquela rapidez e juramos que nem um galo poderia ser todinho cozido tão depressa, ainda mais que o porco nos parecia muito maior do que o javali de há pouco. Mas em seguida Trimalquião, os olhos fixos mais e mais no porco explodiu:
O que é que é isso?! Este porco não foi destripado? Por Hércules que não? Chama, chama aqui o cozinheiro.
Sem demora, o cozinheiro foi despojado das vestes e, com ar desanimado, ficou entre dois carrascos. Entretanto, todos se puseram a pedir por ele. Diziam:
Isso acontece... deixa, nós te pedimos; depois dessa, se ele cair noutra, ninguém vai pedir por ele.
Eu, de uma intransigência das mais cruéis, não consegui me conter e, aproximando-me do ouvido de Agamêmnon, disse:
Venhamos e convenhamos; esse escravo deve ser o que há de mais imbecil. Vê lá se alguém pode se esquecer de destripar um porco... Por Hércules nem se fosse um peixe eu o perdoava.
Mas não Trimalquião, de sorriso aberto de novo:
Pois então disse ele , já que você é de memória tão fraca, destripa ele pra gente. Já!
Tendo novamente vestido sua túnica, o escravo agarrou um punhal e, de mão trêmula, cortou aqui e ali o ventre do porco. Sem demora, dos cortes que iam se alargando, graças à curvatura formada pelo peso, derramavam-se salsichas e chouriços.
SERVIÇO
- ''Satíricon''
Autor - Petrônio, tradução e posfácio de Cláudio Aquiti, apresentação de Raymond Queneau, capa dura
Editora - Cosac Naify
Páginas - 172
Quanto - R$ 55


