Transformar um zé ninguém em herói sempre foi um desejo dentro da história da literatura. O escritor inglês Charles Dickens (1812 – 1870) foi um dos grandes expoentes dessa transformação. Em pleno século 19, fez desse desejo uma prática narrativa.
Em sua obra-prima, o romance "David Cooperlfield", publicado originalmente em 1850, realizou um longo passeio por essa transformação que ganhou grande popularidade. O livro é um catatau de centenas de páginas que abarca e incorpora vários gêneros: tragédia, comédia, drama, sátira, folhetim, etc.
Clássico da era vitoriana da literatura inglesa, "David Cooperlfield" acaba de ganhar uma nova edição brasileira (com nova tradução) pelas mãos da editora Cosac Naify. A obra traz David Cooperfield, um renomado escritor que, no final da vida, decide narrar tudo que viveu desde o nascimento. Alguns episódios apresentados pelo personagem possuem alguns elementos biográficos de Charles Dickens, mas insignificantes diante do teor ficcional.
A infância de Cooperfield é uma sucessão de drama e sofrimento. Primeiro perde o pai ainda bebê, depois, com um novo casamento da mãe, ganha um padrasto rígido e violento. Após várias surras, é internado num colégio pautado pelos castigos físicos. Com a prematura morte da mãe, é obrigado a começar a trabalhar como adulto com apenas dez anos de idade. Sua vida começa a ter uma guinada quando foge de tudo em busca de apoio de parentes do pai que não conheceu.
Um dos méritos de Dickens em "David Cooperfield" está em trabalhar com dezenas e dezenas de personagem de todos os tipos e arquétipos. Operários e advogados, burros e inteligentes, ricos de pobres, bonitos e feios, arrogantes e humildes, bons e maus, gananciosos e generosos, santas e safadas, fiéis e traidores, plebeus e nobres, violentos e pacíficos, religiosos e céticos, honestos e mentirosos, etc e etc. A lista e o leque são imensos. O método narrativo desenvolvido por Dickens pode ser encontrado claramente nos dias de hoje nas novelas televisivas.
A capacidade do escritor em criar personagens espelhos de figuras reais da sociedade pode ser considerada impressionante. Isso é visível em "David Cooperfield" e em toda sua produção. Não é sem motivo que o nome do personagem de quadrinhos Tio Patinhas (no original, Scrooge McDuck) foi baseado do personagem Ebenezer Scrooge criado por Charles Dickens na história "Conto de Natal".
Na essência, as questões morais estão presentes em cada episódio narrado, mesmo que seja apresentado como dúvida ou imaturidade. A moralidade das pessoas simples e das pessoas importantes, dos ricos e dos pobres, dos gananciosos e dos generosos, é expressa num único movimento: deve ser a mesma. A grande popularidade de "David Cooperlfield" pode estar no fato de tentar unir as pontas dos extremos sociais e morais sem tocar no conceito de ideologia. O ser humano é o mesmo em qualquer situação que vive, em qualquer posição que ocupa.
Cooperlfield, narrador do romance, vive sob uma recorrente "velha sensação de infelicidade" desde a infância. O oposto será manifesto apenas na velhice, quando o personagem já passou por todo tipo de agruras e sentimentos. Charles Dickens traçou as ferramentas e os instrumentos para a grande popularidade de filmes e novelas: a felicidade é um elemento eternamente reservado para o final.

Serviço:
"David Cooperfield"
Autor – Charles Dickens
Editora – Cosac Naify
Posfácios – Jerome H. Buckley, Sandra Guardini Vasconcelos e Virginia Woolf
Tradução – José Rubens Siqueira
Páginas – 1312 (capa dura)
Quanto – R$ 79

Se serei o herói de minha própria vida, ou se essa posição será ocupada por alguma outra pessoa, é o que estas páginas devem mostrar. Para começar minha vida com começo de minha vida, registro que nasci numa sexta-feira, à meia-noite. Notaram que o relógio começou a bater as horas e comecei a chorar simultaneamente. Considerando o dia e a hora do meu nascimento, a parteira e algumas mulheres sábias do bairro, que tinham um vivo interesse em mim meses antes de qualquer possibilidade de nos conhecermos pessoalmente, declararam, primeiro, que eu estava destinado a ser infeliz na vida; e, em segundo lugar, que teria o privilégio de enxergar fantasmas e espíritos; ambos os dotes inevitáveis, como elas acreditavam, a toda infeliz criança de qualquer gênero, nascida nas primeiras horas de uma noite de sexta-feira. (Fragmento de "David Cooperfield", de Charles Dickens)
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