Jornais do mundo todo noticiaram recentemente a morte de Juan José Saer. Após anos lutando secretamente contra o câncer, aos 67 anos de idade o escritor argentino deixou para trás aquilo que chamava de ''ficção da matéria''. Pouco conhecido no Brasil, Juan José Saer é considerado um dos principais nomes da literatura argentina contemporânea. Expoente da ''geração pós-Jorge Luis Borges'', construiu uma literatura particular, com características fortes e próprias.
Um belo exemplo de sua literatura pode ser encontrado em ''A Ocasião'', romance que acaba de ser lançado pela Editora Companhia das Letras. Trata-se de sua terceira obra publicada no país, antecedida apenas de ''Ninguém Nada Nunca'' (1997) e ''A Pesquisa'' (1999).
''A Ocasião'' apresenta a história de Bianco, um homem capaz de ler pensamentos alheios, mover objetos com a mente, modificar a forma de objetos de metais com o leve toque dos dedos. Realizando demonstrações públicas de seus poderes por países da Europa, obtém fama, poder e dinheiro no final do século 19.
Numa de suas demonstrações, cientistas positivistas decidem desmascará-lo. Revelando ao público que seus poderes não passam de simples ilusionismo, Bianco passa a ser considerado um falsário. Para fugir da humilhação pública e da perseguição científica, decide imigrar para a Argentina, país onde ninguém o conhece.
No país sul-americano adquire uma grande extensão de terra em pleno pampa argentino, uma região miserável, desabitada e desértica. Como fazendeiro, planeja criar gado e instaurar novas e modernas técnicas de pecuária. Ao longo dos anos, com sucesso em suas atividades, torna-se um homem rico e influente na região.
Então em início seus tormentos, divididos entre dúvidas monstruosas e certezas cortantes. Na mesma velocidade em que aumenta sua riqueza, seus poderes sobrenaturais diminuem na mesma proporção. Na mesma velocidade que ama sua jovem esposa, acredita que o filho que ela carrega na barriga seja de seu único amigo argentino e sócio em seus negócios.
Na narrativa de ''A Ocasião'', Juan José Saer trabalha com descrições de elementos internos e externos de maneira simultânea. Usando frases longas, apresenta lado a lado, pontuados apenas por vírgulas, o tormento mental do personagem Bianco e o espaço físico em que está inserido.
O vazio e árido espaço geográfico dos pampas dialoga, e ao mesmo tempo se opõe, aos férteis e abundantes pensamentos do personagem. A relação entre essas duas atmosferas faz do romance uma viagem pelo insolúvel. Passado e presente comem no mesmo prato raso, e a sobra que cai dele se transforma no verdadeiro dos alimentos.
A história desenhada por Juan Saer em ''A Ocasião'' é repleta de sutilezas. Descrições e percepções seguem o princípio da inconclusão. Embora os fatos ocorram num amplo físico, dá a impressão de que tudo acontece num espaço interno, restrito ao pensamento. O próprio final do romance assume a forma de um campo aberto e dúbio. Instaura no leitor a sensação de abismo convertido em norma, o lugar onde os personagens armam o acampamento de suas existências.
Juan José Saer nasceu na província de Santa Fé em 1937. Em seu país, por vários anos atuou como professor universitário, dando aulas sobre a história do cinema. Seguindo os mesmo passos do escritor Julio Cortazar (1914 - 1984), trocou a Argentina pela França em 1968, onde passou a ministrar aulas de literatura na Universidade de Rennes. Nunca voltou a residir em seu país natal, morrendo num hospital de Paris em junho de 2005.

Serviço:
- Livro ''A Ocasião'', de Juan José Saer. Editora Companhia das Letras, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman, 190 páginas, R$ 35,00.

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