LEITURA - A lua sob o tapete
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de junho de 2015
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Para falar da lua não é necessário apontar para ela com o dedo indicador astronômico. Não é necessário colocar as rédeas da objetividade nos olhos. Para falar da lua basta falar das nuvens que, em algumas noites, escondem sua presença. Basta falar de seu reflexo numa poça de água de chuva. Ou falar sobre o ruído das rodas dos carros no asfalto que roubam seu silêncio.
Essa faculdade da literatura, a de falar sobre as coisas de maneira indireta, é a grande ferramenta do escritor Alejandro Zambra. Seu livro de contos "Meus Documentos", que acaba de ser lançado pela editora Cosac Naify, revela como a história de um país também é a história de cada cidadão.
Um dos mais cultuados escritores chilenos da atualidade e expoente da autoficção latino-americana, Alejandro Zambra nasceu em 1975, na cidade de Santiago. Sua literatura traz, de maneira extremamente sutil, uma maneira diferenciada de falar da história do Chile, país que viveu quase duas décadas sob violenta ditadura militar. Uma nação que até os dias de hoje é atormentada pelo fantasma do general Augusto Pinochet (1915 2006).
Dos 11 contos que integram "Meus Documentos", alguns trazem histórias de reminiscências da infância dos personagens e do escritor (duas vozes que se confundem e se misturam intencionalmente na escrita de Zambra). Nada mais do que a infância de qualquer garoto no início da década de 1980 onde a situação política do país chega de maneira discreta. A infância não vive a ditadura militar, mas recebe notícias veladas sobre ela de variadas formas. As marcas valem mais do que os fatos.
Outros contos trazem histórias da juventude do personagem/escritor em que as relações amorosas estão intimamente vinculadas ao cotidiano e as novas ferramentas de convivência. No conto "Lembranças de Um Computador Pessoal", Alejandro Zambra apresenta o desenho de uma relação amorosa a partir de um computador. Não no sentido virtual, mas no sentido de um jovem casal dividir um mesmo computador, a mesma máquina.
Num primeiro momento a divisão do computador acontece de maneira harmoniosa, mas com o tempo começa a ocorrer concorrência e desavenças. A relação amorosa do casal é invadida por coisas como a instalação de novos programas, os paus regulares, os problemas técnicos, a memória saturada, os curiosos que aparecem propondo resolver o problema e só pioram, sistema ultrapassado, equipamento obsoleto, a necessidade de um novo modelo, etc.
Essa é uma das direções apontadas pelos contos de "Meus Documentos". Não é necessário isolar tema ou assunto para conseguir jogar luz sobre ele. Nada mais do que a capacidade de falar sobre determinada coisa sem olhar objetivamente para ela. Para esse processo, o ingrediente fundamental está em utilizar a delicadeza para olhar na direção de coisas que nem sempre são delicadas.
Alejando Zambra possui três breves romances publicado no Brasil, "Bonsai", "A Vida Privada das Árvores" e "Formas de Voltar Para Casa", todos publicados pela Cosac Naify. Eles formam uma espécie de trilogia sobre a vida particular, marcada pelas relações amorosas, e a vida social, marcada pelos contextos históricos.
A lua pode estar na ponta do dedo ou atrás das nuvens. Pode estar na poça dágua ou no ruído dos carros no asfalto. A lua também pode estar embaixo do tapete que os dedos apanharam da poça dágua ao lado das rodas dos carros.
Serviço:
"Meus Documentos"
Autor Alejandro Zambra
Editora Cosac Naify
Tradução Miguel Del Castillo
Páginas 224
Quanto - R$ 32,90


