LEITURA - A lógica exata do absurdo
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de agosto de 2006
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A história da literatura brasileira, em alguns momentos, possui a péssima mania de colocar belas obras dentro da empoeirada gaveta de sua escrivaninha. Obras que permanecem esquecidas entre volumosos tratados literários estéreis. Desconhecidas, ficam exiladas de seus possíveis leitores.
Os contos do escritor mineiro Murilo Rubião (1916 - 1991) permaneceram, durante décadas, aprisionados nessa gaveta esperando por ar puro e novos leitores. Rubião publicou seu primeiro livro, ''O Ex-Mágico'', em 1947. Poucos lhe deram a devida atenção. Publicou o segundo, ''A Estrela Vermelha'', em 1953. Poucos entenderam a originalidade de suas histórias. Seus textos fugiam das regras conhecidas, trabalhavam com o irreal e o absurdo de maneira verdadeira, real. As situações mais inverossímeis de seus personagens se tornavam comuns, rotineiras. Suas histórias concediam ao absurdo uma lógica exata e palpável.
Agora, quando se comemora os 90 anos de seu nascimento, a Editora Companhia das Letras começa a publicar a obra completa de Rubião. Podem ser encontrados nas livrarias os dois primeiros volumes, ''O Pirotécnico Zacarias e Outros Contos'' e ''A Casa do Girassol Vermelho e Outros Contos''. O terceiro volume, ''O Homem do Boné e Outros Contos'', está previsto para ser lançado em abril de 2007.
Murilo Rubião não produziu uma vasta obra. Deixou apenas 33 contos. Em síntese publicou apenas três livros. Os restantes apresentam as mesmas histórias reescritas, com outros títulos, nome de personagens trocados ou, em alguns casos, com finais alterados. Sua insistência em escrever e reescrever seus textos, alterando-os mesmo depois de publicados, era defendida da seguinte forma: ''Reelaboro a minha linguagem até a exaustão, numa busca desesperada da clareza, para tornar o conto o mais real possível.''
Hoje Murilo Rubião é considerado, mesmo que seu estilo seja único, o primeiro escritor do gênero realismo fantástico na literatura brasileira. Gênero que posteriormente ganhou notoriedade mundial com escritores latino-americanos como Gabriel Garcia Márquez e Julio Cortázar. Outro detalhe é a semelhança de sua temática com a do escritor tcheco Franz Kafka (1883 - 1924). Segundo consta, Rubião somente conheceu a obra de Kafka depois de ter publicado seus dois primeiros livros. O primeiro a notar a semelhança entre ambos foi Mário de Andrade.
Nos contos de Rubião, o fantástico e o absurdo materializam-se em realidade. Eles revelam, invariavelmente, situações que caminham para a total ausência de solução. Qualquer tipo de resolução apresenta-se cada vez mais distante, impossível. Apesar de usar epígrafes bíblicas em todas suas histórias, não há nenhum tipo de salvação para seus personagens. Eles estão condenados à repetição e à metamorfose constante. Com ironia crítica, as histórias revelam impossibilidade da realidade como a encaramos.
Os dados biográficos de Murilo Rubião revelam um homem comum, pacato, quieto em seu canto. Nasceu em julho de 1916 no interior de Minas Gerais. Formado em Direito, trabalhou em jornais, revistas e rádios de Belo Horizonte. A partir da década de 40 entrou para o mundo do funcionalismo público trabalhando em vários setores de órgãos mineiros. Chegou a ocupar, em 1952, o cargo de chefe de gabinete do então governador Juscelino Kubitschek. Faleceu em 1991, deixando uma frase que resumia sua biografia: ''Não me casei, não tive filhos, não plantei árvores, apenas alguns arbustos.''
Serviço:
- Livro ''O Pirotécnico Zacarias e Outros Contos'' de Murilo Rubião. Editora Companhia das Letras, organização de Humberto Werneck, posfácio de Jorge Schwartz, 120 páginas, R$ 29,00.
- Livro ''A Casa do Girassol Vermelho e Outros Contos'' de Murilo Rubião. Editora Companhia das Letras, organização de Humberto Werneck, posfácio de Sérgio Alcides, 104 páginas, R$ 29,00.


