LEITURA - A letra do outro
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de outubro de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Identidade é uma tartaruga escondida dentro do casco. Todos sabem que ela está lá, dentro do casco, mesmo não estando com a cabeça para fora. O casco, por si só, demonstra a presença da identidade e, ao mesmo tempo, sua ausência. Afinal, tudo pode não passar de um casco vazio, abandonado pela própria identidade.
Não existe nenhuma tartaruga em ''Budapeste'', novo romance de Chico Buarque de Hollanda lançado pela Companhia das Letras, mas a imagem pode ser aplicada na questão da identidade. O personagem principal do livro, José Costa, percorre um corredor repleto de espelhos onde sua identidade troca de casca.
''Budapeste'', terceiro romance do compositor, narra a história de José Costa, escritor anônimo que trabalha criando textos para serem assinados por terceiros. Fechado em seu escritório, escreve discursos políticos, trabalhos acadêmicos, artigos de jornais, livros, palestras e autobiografias para pessoas que não conhece, exercendo a profissão de ''ghost-writer''.
José Costa vive tranquilo em seu anonimato, ao lado da esposa Vanda, até o dia em que no meio de uma viagem acaba passando por Budapeste, Hungria, por completo acaso. Sem motivo aparente, acaba enfeitiçado pela língua húngara. Para aprendê-la, torna-se aluno e amante de Kriska, uma mulher que se propõe a ensinár o húngaro na prática do cotidiano.
Assim, José Costa (que passa a se chamar Zsoze Kósta em húngaro) passa a viver entre o Rio de Janeiro, sua cidade natal, e Budapeste. Além de viver entre duas cidades e duas línguas, passa a viver entre duas mulheres. Atormentado pelo aprendizado de uma língua exótica, abandona a rentável profissão no Brasil e se transfere para Budapeste, onde precisa começar seu ofício do zero. Aos poucos começa a escrever em húngaro melhor que muitos autores nativos.
Em ''Budapeste'', Chico Buarque realiza um jogo de espelhos de maneira a enriquecer a narrativa sem deixar evidente a estrutura da história. De um lado coloca um autor de livros alheios, preso em seu anonimato. Em seguida, o coloca na posição inversa: alguém escrevendo um livro em seu nome. O obra vira best-seller e José Costa experimenta o outro lado da moeda.
Esse jogo de espelhos está presente em toda a extensão de ''Budapeste''. Em alguns momentos Chico Buarque deixa transparece que o próprio livro é uma das obras de José Costa, aumentando o corredor de espelhos. Esse recurso favorece múltiplas leituras do romance. Entre elas, aquela que diz respeitos à relação do narrador com Vanda e Kriska. Em alguns momentos as duas mulheres parecem ser uma mesma pessoa separadas pela mente do narrador.
A questão final sugerida por Chico, está na dúvida se o relato do narrador é uma reconstituição dos acontecimentos reais ou apenas mais uma das ficção criadas por ele, enquanto personagem. Essa é uma das várias ironias da obra. E mesmo com essa ampla sala de espelho, a linguagem do autor é clara e, em vários momentos, mais fluida do que seus romances anteriores, ''Estorvo'' (1991) e ''Benjamim'' (1995).
Chico Buarque levou dois anos para concluir ''Budapeste''. E apesar de ambientar parte da história na Hungria, nunca colocou os pés naquele país. Esses e muitos outros elementos mostram que o romance é antes de tudo literatura, ficção construída com inteligência e sustentada por um amplo leque de referências.
Serviço:
- ''Budapeste'', de Chico Buarque, Editora Companhia das Letras, 176 páginas, R$ 29,50.


