Ricardo Piglia: "A leitura é a arte de construir uma memória pessoal a partir de experiências e lembranças alheias"
Ricardo Piglia: "A leitura é a arte de construir uma memória pessoal a partir de experiências e lembranças alheias" | Foto: Eduardo Grossman/Divulgação



Diante da morte iminente, algumas pessoas abrem os braços e se despedem da vida. Outras pessoas, diante da fatalidade, agarram-se à vida com unhas e dentes na tentativa de adiar o derradeiro abraço.

O escritor argentino Ricardo Piglia, falecido no último final de semana aos 75 anos, pertenceu ao grupo de pessoas propensas em adiar o abraço fatal. Após receber em 2013 o diagnóstico de esclerose lateral amiotrófica (ELA), se empenhou em concluir três livros. Mesmo com uma doença capaz de gerar uma paralisia muscular progressiva, seguiu em frente contando com a ajuda de vários auxiliares para concluir o trabalho.

Mas os problemas se multiplicaram quando a empresa que gerenciava seu plano de saúde se recusou a pagar o tratamento. Ações judiciais foram necessárias, além de uma petição assinada por 84 mil pessoas sensibilizadas pela causa de um dos escritores contemporâneos argentinos mais respeitados em todo o mundo.

Em suas palavras, considerava uma espécie de injustiça sua fatalidade: "A experiência da doença é a da injustiça em estado puro: ‘Por que eu?’, você se pergunta, e qualquer explicação é ridícula e sem sentido. O sentimento de injustiça convida à rebelião e à luta, então você não se queixa e isso é um alívio."

Nos três anos em que conviveu com a doença, Ricardo Piglia finalizou "Os Diários de Emilio Renzi", obra dividida em três volumes. A obra é uma compilação dos diários do escritor que começaram a ser redigidos em 1957, quando tinha 16 anos de idade. O primeiro volume foi publicado em 2015, os outros dois estão previstos para serem lançados postumamente em 2017.
A utilização de um nome falso, para a publicação de seus diários, indica uma das características da literatura de Ricardo Piglia. Emilio Renzi é o alter ego de Piglia que aparece como personagem em vários de seus livros, principalmente em seus romances "Respiração Artificial" e "Alvo Noturno".

Para ele, os diários de maneira geral, são constituídos por uma confusão entre realidade e ficção: "Você escreve e escolhe o imaginário porque está desajustado em relação à vida. Isso não implica em qualquer privilégio ou é garantia de profundidade, é uma rachadura entre a experiência e o sentido, eu não entendo como acontece e de onde vem esse pensar demais e essas ligeiras alucinações e talvez seja por isso que escrevo um diário, para manter à distância essa estranheza, mas eu só consegui confusão. É engraçado, procura-se entender o que acontece e só se consegue ficar mais perplexo."

Ricardo Piglia nasceu em 1940, em Adrogué, província de Buenos Aires. Professor da Universidade de Buenos Aires e da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, deixou uma obra que envolve romances, ensaios e contos. Foi um dos primeiros escritores latino-americanos a promover, num único bloco narrativo, a união entre ensaio e ficção.
Como ensaísta, tinha certa queda pelos romances policiais. Chegou até desenvolver uma teoria sobre esse gênero literário que aplicou em alguns de seus romances como "Dinheiro Queimado", "Alvo Noturno" e "Cidade Ausente". A literatura de Piglia também possui fortes alicerces no universo da leitura, tanto das obras clássicas como das obras da cultura de massa. Para ele, "a leitura é a arte de construir uma memória pessoal a partir de experiências e lembranças alheias".

No Brasil suas obras foram publicadas por suas editoras. Pela Iluminuras saíram "Respiração Artificial" (1987), "Nome Falso" (1988) "Prisão Perpétua" (1989), "Cidade Ausente" (1993) e "Laboratório do Escritor" (1994). Pela Companhia das Letras foram lançados "Dinheiro Queimado" (1998), "Alvo Noturno" (2011), "Formas Breves" (2004), "O Último Leitor" (2006) e "O Caminho de Ida" (2014).

Ricardo Piglia seguia alguns postulados de Jorge Luis Borges (1899 – 1986). Entre eles, aquele que indica que a obra-prima pode ser voluntariamente desconhecida. Algo como esconder algo no futuro, como uma charada despercebida: "A verdadeira legibilidade sempre é póstuma."

mockup