O título diz quase tudo. ''Bagana na Chuva''. A imagem é de uma pessoa que tem aquilo que deseja próximo das mãos, algo que pode lhe dar algum tipo de felicidade, ou mesmo a sensação de estar vivo sem nenhuma espécie de concessão. E todo esse sentimento sob uma chuva fria e insistente. Uma chuva que torna impossível que aquilo que está próximo das mãos seja tocado, aproximado do corpo como um palito de fósforo úmido sonhando com o calor do fogo.
''Bagana na Chuva'', publicado pela Editora Ciência do Acidente, é o novo livro do dramaturgo londrinense Mário Bortolotto. Como suas obras anteriores, fala de personagens desajustados vagando pelos bares da cidade em busca daquilo que não sabem ao certo o que seja. A única certeza que possuem nos bolsos vazios é a consciência daquilo que não querem. O lançamento oficial acontece dia 3 de novembro no Espaço Cemitério de Automóveis, em São Paulo, cidade onde o autor está radicado. Trata-se de sua segunda investida no gênero romance - a primeira foi o pulp policial ''Mamãe Não Voltou do Supermercado'' (Atrito Art Editorial, 1998).
''Bagana na Chuva'' é um romance formado por fragmentos de memória do narrador, o jovem Cardan, explicitamente alter-ego de Mário Bortolotto. São episódio vividos onde o tripé mulheres-bebeiras-amigos ocupa lugar de destaque, tudo lubrificado com sexo e mais sexo. Algumas reflexões também entram em jogo, todas atoladas com os dois pés na ironia. Uma ironia que converte numa espécie de capa protetora contra a padronização da existência.
Nascido em 1962, no bairro Jardim do Sol, Mário Bortolotto coloca Londrina como cenário de ''Bagana na Chuva''. Algumas passagens sintetizam esse universo de modo poético: ''Londrina é onde os meninos se sentem à vontade, com seus coturnos sem cadarços, os sofás sem estofado, suas barrigas precocemente flácidas, o cabelo mal cortado, suas discussões sobre nada que não levam a lugar algum.'' O caráter auto-biográfico, que em vários momento se mistura com a ficção, é um elemento espalhado em toda narrativa. Assim, autor e personagem trafegam numa avenida de mão dupla.
Cardan é uma espécie de casca-grossa que, de tão antipático, parece simpático. Um homem politicamente incorreto com relação às mulheres, e por isso mesmo, um sedutor ao avesso. Algo como um trator sentimental, ou um cavalo romântico, sempre dividido entre o amor de uma mulher e o convívio dos amigos. Sua incapacidade em se jogar no poço da paixão é um dos elementos mais sutis de suas aventuras. O amor assume a forma de uma pipa empinada pelos garotos da outra rua e, frente a dificuldade de ser alcançada, mesmo com cerol, torna-se o eterno objeto indesejado a partir do momento em que é desejado. O ceticismo de Cardan germina nesse território.
A linguagem de Bortolotto está totalmente pautada na oralidade, no coloquial. Com uma surpreendente capacidade de criar bons diálogos - que podem ser encontrados em abundância em seus textos teatrais - consegue trabalhar o bom humor trocando as luvas de pelica pelas luvas de boxe. Por não estar estruturado na forma de um romance convencional, mas sim através de fragmentos de histórias recortadas ao acaso, ''Bagana na Chuva'' pode ser lido como um romance incompleto, em meio a vários devaneios. Talvez como uma amnésia alcoólica, ou como filme montado com centenas de fotogramas descartados no lixo.
''Bagana na Chuva'' escrito por Bortolotto há vários anos atrás, parece dizer que a vida é, na realidade, do tamanho de uma pulga. Não do tamanho de um mamute como geralmente os homens a consideram. Assinalando que os pequenos prazeres, bem como os pequenos desencantos, digam muito mais que os grandes e imensos feitos. E que o imediato pode ser vivido sem culpa, mesmo que pagando um preço nunca desvelado. Um romance destinado a encontrar abrigo seguro nas mãos dos jovens e um pesado desdém nas unhas dos velhos. A voz de um escritor que consegue falar apenas sobre aquilo que vive, sem pudores, sem condolências.

- Serviço: ''Bagana na Chuva'' de Mário Bortolotto, prefácio de Reinaldo Moraes, Editora Ciência do Acidente (fone 11/3871-9606), 128 páginas, R$ 20,00.

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