Novo livro de Oscar Nakasato traz uma sensível percepção das relações familiares aplicando a lendária fábula da cigarra e da formiga de maneira trágica
Novo livro de Oscar Nakasato traz uma sensível percepção das relações familiares aplicando a lendária fábula da cigarra e da formiga de maneira trágica | Foto: Divulgação



Zé Paulo e Zé Eduardo. Dois irmãos afogados em rancores. Uma vida familiar pautada pelo ódio. A síntese da relação entre os dois está nas seguintes palavras: "Daqui a alguns anos nós dois vamos morrer, eu e ele. Se ele morrer primeiro, não vou no seu enterro, se eu for antes, ele não vai no meu."
O rancor familiar é o grande tema do novo romance do escritor maringaense Oscar Nakasato, "Dois", lançado pela editora Tordesilhas. Trata-se do segundo livro escrito por Nakasato após sua estreia literária em 2011 com "Nihonjin", romance agraciado com diversos prêmios literários, entre eles o Jabuti e o Benvirá.
"Dois" traz a história de Zé Paulo e Zé Eduardo, dois irmãos de identidades distintas. Algo como Caim e Abel vivendo uma vida simples na cidade de Maringá no seio de típica família brasileira de classe média baixa.
Zé Paulo, o filho mais velho, segue os conselhos e os passos do pai em nome do conservadorismo. Segue também a antiga profissão do pai, relojoeiro. Dedica-se com afinco ao trabalho e à família. Respeita os bons costumes e considera a vida algo que deve ser controlado, sem imprevistos.

Zé Eduardo, o caçula da família, vive aberto a qualquer tipo de imprevistos. Segue a vida na direção em que ela sopra. Começa a fazer parte do movimento estudantil secundarista ainda na década de 1960. Na universidade, entra de cabeça na luta contra a ditadura do regime militar. Como exilado político, fixa residência na França até ser anistiado em 1979.
Um assume o papel de cigarra, outro o papel da formiga. Tudo sem final feliz ou moral no final da fábula. O conflito entre os dois tem início ainda na infância e se estende até a velhice. Ódio e rancor não são tratados ou curados, apenas alimentados. E não apenas pelos dois, mas por toda a constituição familiar. Após décadas sem se verem, ambos voltam a se encontrar em Maringá, onde o ódio não pode ser apaziguado, onde o rancor não pode ser amenizado. Em "Dois", o tempo não se apresenta como remédio que tudo cura.
A narrativa de Oscar Nakasato é formada por duas vozes paralelas. A de Zé Paulo e a de Zé Eduardo. E cada uma delas apresenta uma leitura distinta dos acontecimentos. Cada um revela sensações e sentimentos contrários.
O autor revela que dentro de uma mesma família, podem existir indivíduos completamente distintos, com personalidades distintas, com leituras de mundo diferentes, com diferentes compreensões da vida. E que algumas famílias nascem em guerra, numa invisível batalha que contamina todos seus membros. E quando a guerra começa a perder o sentido, seus membros criam novos sentidos, motivos outros, para alimentar e perpetuar a batalha.
"Dois" traz uma sensível percepção das relações familiares aplicando lendária fábula da cigarra e da formiga de maneira trágica. A formiga consegue ver apenas alguma parte da realidade. A cigarra consegue ver apenas outra parte da realidade. Duas partes que não se encontram no infinito.
Nascido em Maringá, Oscar Nakasato atualmente reside em Apucarana onde atua como professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná.

Serviço:
"Dois"

Autor – Oscar Nakasato
Editora – Tordesilhas
Páginas – 184
Quanto – R$ 34,00 e R$ 23,80 (e-book)

Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - A irmandade do rancor
| Foto: Reprodução



[left]Fragmento:

Quando ele desceu do ônibus, o Zé Eduardo, eu não reconheci de imediato. Estava magro, metido numa calça surrada, uma camiseta larga, com o cabelo comprido, com barba comprida, parecia o Antonio Marcos, aquele cantor. Tinha se transformado mesmo num vagabundo, e quando vi ele descendo do ônibus eu descobri que não estava nem um pouco feliz com o seu retorno. (...) Ele tinha se tornado um estranho pra mim. Ele se aproximou sorrindo, eu estendia a mão, fiquei um pouco distante, mas Zé Eduardo me puxou de encontro a ele, me abraçou, bateu as mãos nas minhas costas. É lógico que fiquei encabulado, não era nosso costume abraçar os outros. Meu pai nunca me deu um abraço, e eu não me tornei um homem pior que os outros por causa disso. Zé Eduardo era meu irmão, mas foi perseguido pela polícia, foi expulso do país, e de alguma forma eu sentia que estava me sujando enquanto me abraçava, e com aquela barba. Eu fiz ele afrouxar os braços, eu me afastei, tinha ficado aborrecido com aquela intimidade descabida, ele devia saber o que se passava com os outros, mas ele, nunca se importou com ninguém, só com ele mesmo.

(Fragmento de "Dois", de Oscar Nakasato)[/left]

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