A noite tem razões que o dia desconhece. Em suas sombras, a luz é o alfabeto de uma civilização extinta há milênios. As razões da noite são repletas de paredes negras por todos os lados, espaço que favorece os alicerces da solidão voluntária.
As razões da noite, e suas infinitas sombras, estão impregnadas nas páginas de "A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves", novo romance do escritor cuiabano Joca Reiners Terron que chega esta semana às livrarias. A escuridão de braços dados com a solidão é um dos instrumentos da narrativa para desenhar uma possível irmandade da solidão. A paradoxal tentativa de agrupamento de solidões.
A atmosfera do sinistro paira sobre "A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves" como chuva fina e contínua ao longo da semana. Sobre a narrativa paira o manto das sombras de personagens misteriosos, nebulosos à luz do sol. Sempre está presente a ferida do sinistro pronta para explodir, mas sempre adiada. Ao mesmo tempo em que trabalha com a realidade contemporânea, a narrativa de Joca Terron incorpora elementos da literatura fantástica.
O romance narra a história de vários personagens que levam existência paralelas num mesmo bairro da cidade de São Paulo, o emblemático Bom Retiro. Um bairro onde antigos imigrantes judeus alugam imóveis para imigrantes coreanos que empregam imigrantes bolivianos em suas atividades comerciais. Próximo da região, está o recém inaugurado zoológico Nocturama, um parque temático reservado aos animais de vida noturna onde turistas podem apreciar bichos que fazem da noite seu ambiente natural.
Entre os personagens está um insone escrivão de polícia que trabalha no plantão da madrugada, uma enfermeira especializada em cuidar de pacientes terminais, uma taxista que passa as noites treinando cães assassinos, um coreano entregador delivery de supermercado e um idoso acometido de senilidade. Todos esses personagens se cruzam em alguma altura da narrativa a partir de um fato policial: mortes bizarras.
Apesar dessa galeria excêntrica de personagens, a significação da obra recai sobre outros dois personagens que elegem a invisibilidade como destino. De um lado está a "criatura", uma figura portadora de anomalias degenerativas e estranhas enfermidades que não suporta a luz do dia. De baixa estatura, tanto pode ser uma criança, uma mulher ou um idosa. Sua forma e identidade indefinida, ao lado de sua enfermidade, a transforma num "monstro" que causa repulsa e a empurra ao isolamento social.
De outro lado está o leopardo-das-neves, um dos últimos da espécie vivo em todo o planeta, recluso no zoológico de Nocturama. Trata-se de um raro animal de hábitos noturnos que traz uma coleção de fábulas em sua pele. Ao conhecer a humanidade, deixou de lado a vida selvagem para permanecer próximo do ser humano. Enfeitiçado pela beleza da voz humana, desistiu de sua selvageria e caiu em maldição.
Para as personagens de "A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves" o dia pouco significa. Chega a ser um empecilho. E não se trata de notívagos. A noite, com sua escuridão capaz de isolar o mundo externo, se apresenta como o ambiente ideal para a calorosa manifestação da solidão como ambiente natural.
Tudo isso poderia fazer do romance uma farpa na pupila. Mas a narrativa Joca Terron aponta para outra sutil direção: a irmandade das sombras. Há toda uma correlação de similaridade entre diversos tipos de solidão. E o passado como o grande mecanismo de funcionamento da estrutura invisível sob chuva fina ao longo das décadas e décadas.
O narrador de "A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves" é uma figura insone e comedor de anfetaminas. Para ele, o sono é algo que não se resolve. E é exatamente nessa atmosfera que o passado invade sua existência. O passado simplesmente se manifesta no tempo presente como um algo que se manifesta no dia a dia, no agora. O passado vai "acontecer", basta sentar e esperar.
Nascido em Cuiabá em 1968, Joca Terron é autor, entre outros livros, de "Hotel Hell", "Animal Anônimo", "Não Há Nada Lá", "Curva de Rio Sujo", "Sonho de Guilhotina Interrompido" e "Do Fundo do Poço Se Vê a Lua". Sua literatura traz, invariavelmente, algum traço de mistério e conexões. Em "A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves" isso fica mais evidente sob o manto do céu escuro. Uma noite que resguarda segredos de família - os piores segredos da face da terra. Sempre ocultos sob sete chaves, sete palmos, sete noites e sete sombras. Um território onde o sol não coloca os dedos.

Serviço:
"A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves"
Autor – Joca Reiners Terron
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 176
Quanto – R$ 36 (e-book R$ 25)


Fragmento:
Insone é um sujeito que é despejado com violência de sua cama quentinha e jogado num deserto frio e iluminado. Não pertence à noite nem ao dia, mas ao limiar, está no meio do caminho. Sob a luz do dia, é levado à loucura, pois caminhar ao sol turva a visão e causa alucinações. A luz, em vez de clarear, torna difusos os contornos daquilo que não é percebido muito bem. Do mesmo modo que a luz afeta o retrato familiar que ficou tempo demais exposto à luz solar e perdeu seus pigmentos. O Passado não deixa de ser uma soma de distorções e de mal-entendidos, semelhante à pintura da parece da lanchonete, cores cobertas por outras cores sem lixamentos prévios que são recobertas de novas cores. No entanto a cor original da parede permanece ali debaixo, oculta sob camadas que se seguiram a ela, ainda respirando, viva.

(Fragmento de "A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves", de Joca Reiners Terron)

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