LEITURA - A invenção do pai
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de junho de 2007
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Mais cedo ou mais tarde todo filho precisa zerar as contas com seu pai. Contas que assumem infinitas formas. Seja reconhecendo o pai desconhecido, seja entendendo o que está por baixo da pele enrugada. Seja entendendo suas dores ou percebendo seu jeito convulsivo de tomar cerveja. Seja como reclama do trabalho ou como afaga a cabeça de cães e cavalos. Seja pela maneira como nega algo precioso ou pelo modo violento como afirma sua autoridade.
Acertar as contas com o pai torna-se algo inevitável. Mais cedo ou mais tarde. O escritor tcheco Franz Kafka (1883 - 1924) fez isso com 36 anos de idade. Escreveu ''Carta ao Pai'', obra em que ódio e fascínio dividiam o mesmo espaço. Uma reflexão sobre o processo de entendimento do papel nada agradável do pai em sua vida.
O pai de Kafka nunca leu a obra. Da mesma maneira como o pai de J. M. G. Le Clézio nunca leu ''O Africano'', livro que o escritor francês escreveu para igualmente acertar as contas com seu pai. Publicado originalmente em 2003, o livro acaba de ganhar sua edição brasileira pelas mãos da Editora Cosac Naify.
Diferentemente de Kafka, Le Clézio não estava interessado acertar as contas com o pai com ódio e vingança, mas através da compreensão. Através da escavação de lembranças afetivas. Realizou a tarefa com 63 anos de idade numa
obra onde memórias e ficção se misturam a ponto de ser impossível traçar algum tipo de fronteira.
Em ''O Africano'', Le Clézio realiza um viagem pela memória da infância, pelas lembranças esparsas deixadas pelo pai. Atuando como médico itinerante nas fronteiras coloniais francesas e inglesas, o pai passou grande parte da vida perambulando pelas regiões mais distantes da África.
Le Clézio teve o primeiro contato com o pai com oito anos de idade. Após enfrentar o drama a Segunda Guerra Mundial, parte com a mãe para o interior de Camarões e Nigéria, onde o pai atua como médico. O encontro com um pai rígido e metódico, coincide com a descoberta da liberdade. Nas savanas africanas o garoto pode correr sem limites, conviver com a natureza em estado bruto.
''O Africano'' é o tipo de literatura que encanta leitor logo nas primeiras páginas. O autor inicia a obra com uma observação emblemática: ''Todo ser humano é um resultado de pai e mãe. Pode-se não conhecê-los, pode-se duvidar deles. Mas eles aí estão: seu rosto, suas atitudes, suas maneiras e manias, suas ilusões e esperanças, a forma de suas mãos e de seus dedos do pé, a cor dos olhos e dos cabelos, seu modo de falar, suas idéias, provavelmente de sua morte, tudo isso passou para nós.'' Em seguida descreve seu primeiro contato com a África, onde as sensações corporais ocupam lugar de destaque. De um ataque de brotoeja ao brilho dos corpos nus dos garotos nativos que brincam com pedras e ossos. A experiência de um garoto que deixa a urbanidade européia para experimentar a floresta africana entre nativos iorubás e ibos.
Através de lembranças sensoriais, constrói o passado a partir da ótica do presente, sempre priorizando a primeira impressão, a sensação mais marcante. A percepção do novo mundo coincide com percepção da existência de um pai desconhecido. O tom pontualmente lírico adotado no relato faz com que o livro assuma muito mais a forma de uma narrativa ficcional do que um relato memorialístico.
Jean-Marie Gustave Le Clézio, nascido em 1940, é considerado o maior escritor vivo da literatura francesa. Admirado em toda a Europa, publicou mais de 30 livros, envolvendo romances, novelas, ensaios e poesias. Entre seus romances editados do Brasil se destacam ''À Procura do Ouro'' (Brasiliense, 1985) e ''Deserto'' (Brasiliense, 1987), ''Quarentena'' (Cia. das Letras, 1997) ''Peixe Dourado'' (Cia. das Letras, 2001) e o ensaio biográfico ''Diego e Frida'' (Scritta, 1994) que retrata a tempestuosa relação amorosa entre os pintores mexicanos Diogo Rivera e Frida Kahlo.
''O Africano'' pode ser livremente associado ao relato de Karen Blixen em ''A Fazenda Africana''. As duas obras, cada uma à sua maneira, procuram entender a precisão européia através imprecisão africana. Le Clézio mergulha no rio da memória sem salva-vidas. Não tem nada a perder a não ser a relatividade da verdade. E até mesmo admitir que as lendas estejam mais próximas da realidade do que a própria concretude da realidade.
Todo filho precisa de um passado, e geralmente um pai pode se encaixar nessa necessidade. Se não existe pai, é preciso criá-lo. ''O Africano'' é uma construção nesse sentido, o passado entre o palpável e o imaginário. Pouco importa se as lembranças são reais, pouco importa se os sentidos são fantasiosos. Mais cedo ou mais tarde, todo filho precisa zerar as contas com o pai.
Fragmento de O Africano de J. M. G. Le Clézio
Vou olhar a febre subindo no céu crepuscular, os relâmpagos em silenciosa corrida entre o cinza das escamas das nuvens aureoladas de fogo. Quando a noite estiver negra, escutarei pouco a pouco os passos do trovão, a onda que faz minha rede balançar e apaga a chama do meu lampião. Escutarei a voz da minha mãe, que conta os segundos que nos separam do impacto do raio e calcula a distância à razão de trezentos e trinta e três metros por segundo. Enfim o vento da chuva, muito frio, que avança com toda a força pelo alto das árvores; ouço cada galho que geme e quebra, o ar do quarto fica cheio de poeira que a água levanta ao bater na terra.
Tudo isso tão distante, tão próximo. Uma simples divisória, fina como um espelho, separa o mundo de ontem do meu mundo de hoje. Não falo de nostalgia. Tal impressão de desamparo nunca me causou nenhum prazer. Falo de substância, de sensações, da parte mais lógica da minha vida.
Alguma coisa me foi dada, alguma coisa me foi tomada de novo. O que está definitivamente ausente de minha infância: ter tido um pai, ter crescido junto dele na doçura da intimidade familiar. Sei que isso me faz falta, sem pesar, sem ilusão extraordinária. Quando um homem, dia após dia, olha a luz modificar-se no rosto da mulher que ama, quando espia cada brilho furtivo no olhar de seu filho. Tudo isso que um retrato, uma foto, sejam eles quais forem, nunca poderão captar.
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Serviço:
- Livro ''O Africano'', de J. M. G. Lê Clézio. Editora Cosac Naify, tradução de Leonardo Fróes, 112 páginas, capa dura, R$ 39,00.


