Alfred Jarry, que só andava de bicicleta, foi criador da Pataphysica - ciência das soluções imaginárias - e deixou ao mundo as pegadas do dadaísmo, surrealismo e do teatro do absurdo
Alfred Jarry, que só andava de bicicleta, foi criador da Pataphysica - ciência das soluções imaginárias - e deixou ao mundo as pegadas do dadaísmo, surrealismo e do teatro do absurdo | Foto: Imagens: Reprodução



Em 1897, o escritor francês Alfred Jarry chegou à conclusão de que a ciência não estava dando todas as respostas para a existência humana. Então, entre uma garrafa e outra de absinto, criou a Pataphysica, a ciência das soluções imaginárias.

Jarry não teve tempo de sistematizar a nova ciência ao falecer vítima de meningite tuberculosa, em 1906, com 34 anos de idade. Mas seus escritos serviram de inspiração para grande parte dos movimentos literários que germinaram nas primeiras décadas do século 20. O dadaísmo, o surrealismo e o teatro do absurdo são alguns dos movimentos que, diretamente, beberam na fonte da Pataphysica.

Entre a legião de fãs de Alfred Jarry mundo afora, nas mais variadas épocas, estava o poeta curitibano Paulo Leminski (1944 – 1989). No início da década de 1980, Leminski chegou a traduzir uma das obras de Jarry, o romance "O Supermacho". Lançado pela editora Brasiliense em 1985, a obra rapidamente sumiu do mapa e passou a ser encontrada apenas em sebos como raridade.

"O Supermacho", 30 anos depois, volta agora às livrarias lançado pela editora Ubu resgatando a tradução realizada por Leminski. Com um projeto gráfico instigante, a edição vem acrescida com ilustrações de Andrés Sandoval e posfácios de Annie Le Brun e Giorgio Agamben.

Publicado originalmente em 1902, "O Supermacho" traz uma história que se passa num futuro próximo, o ano de 1920. A narrativa é marcada por divagações sobre amor e sexualidade, sobre a relação entre homens e máquinas. Tudo começa quando o personagem André, num encontro social, dispara a seguinte frase: "Fazer amor é um ato sem importância, já que se pode repeti-lo indefinidamente".

Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - A invenção da máquina do amor



A frase provoca um rebuliço entre os presentes. As opiniões sobre o argumento são as mais diversas. Alguns indicam que um "indígena", ou "indiano" folclórico, conseguiu bater o recorde de 70 relações sexuais em 24 horas. O sujeito é equiparado a uma verdadeira máquina, algo que só a ciência seria capaz de comprovar.

Assim nasce o desafio de colocar a máquina sexual humana num quarto, devidamente acompanhado de sete prostitutas. A experiência deve ser observada por homens da ciência com a missão de comprovar a veracidade dos fatos.

Nessa experiência, com humor, Alfred Jarry insere duas farsas. A primeira está no fato do personagem André assumir, disfarçadamente, a figura do sujeito que representa a máquina sexual. A segunda está no fato de Ellen, filha de um dos cientistas observadores, substituir sozinha, também disfarçadamente, as sete prostitutas contratadas para a experiência.
O casal, em 24 horas, consegue superar as 70 relações, comprovando um novo recorde. Mesmo extenuados, os dois deixam a experiência bem sucedida com a sensação de fracasso. Isso porque ambos admitem que fizeram sexo 80 vezes sem nenhum prazer. E resolvem ocupar um quarto ao lado para, na privacidade total, passarem mais um dia transando. Só que dessa vez em nome do prazer. E por amor.

No fundo, apesar de todas as temáticas paralelas, a obra está centrada na invenção do amor. A invenção do amor que é realizada basicamente através da invenção do outro, do objeto do amor, não do sujeito do amor. Nessa relação amorosa, seria necessário inventar primeiro o objeto de amor que depois inventar o próprio amor.

Uma outra experiência aparece no meio da narrativa de "O Supermacho". Um grupo de cinco ciclistas, a bordo de uma bicicleta de cinco lugares, aposta uma corrida contra um trem. A extensa corrida de 10 mil milhas dura cinco dias e cinco noite ininterruptas. Mais uma vez a disputa entre homem e máquina é apresentada como retrato alucinado de época.

Alfred Jarry (1873 – 1907) é uma das figuras mais excêntricas e extravagantes da literatura francesa. Andava sempre armado, com uma pistola no bolso. Se alguém pedisse fogo para acender cigarro, ele sacava a arma e apontava para o sujeito. Nessa brincadeira chegou a ferir dois fumantes à bala. Essa pistola se tornou lendária e o pintor Pablo Picasso chegou a comprar a pistola de colecionadores. Guardou o objeto durante toda a vida, como um verdadeiro tesouro.

Segundo a lenda, Jarry foi o maior consumidor de absinto de Paris. Andava sempre de bicicleta e se alimentava apenas dos peixes que pescava no rio Sena. Poeta, dramaturgo e romancista, literalmente morreu na miséria, devendo grana para deus e o mundo. Deixou dezenas de obras inacabadas que foram compiladas na década de 1960.

Alfredo Jarry é mais conhecido pelo texto teatral "Ubu Rei", publicado e encenado originalmente em 1896. A obra se tornou referência na dramaturgia moderna com centenas de encenações nos quatro cantos do planeta. A encenação mais recente entrou em cartaz o mês passado no Rio de Janeiro, com Marco Nanini e Rosi Campos nos papéis principais.

O escritor possui outras duas obras publicadas no Brasil, ambas encontradas apenas em sebos: "Ubu-Rei", publicado pela editora Max Limonad em 1986, e "Amor Absoluto", lançado pela editora Imago em 1992.

Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - A invenção da máquina do amor



Serviço:
"O Supermacho – Romance Moderno"
Autor – Alfred Jarry
Editora – Ubu
Ilustrações: Andrés Sandoval
Tradução: Paulo Leminski
Posfácios: Annie Le Brun e Giorgio Agamben
Páginas – 176
Quanto – R$ 49,90

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