Na maioria dos romances policiais existe um crime nas primeiras páginas. Nas páginas restantes se propagam as tentativas de encontrar o criminoso. Esse modelo é colocado de lado em ''Estranha Confissão'', obra do escritor russo Anton Tchekhov (1860 - 1904). O crime aparece apenas no final do romance.
''Estranha Confissão'' foi escrito quando Tchekhov tinha apenas 24 anos, em 1884. Publicado originalmente na forma de folhetim em jornais russos, foi resgatado em forma de livro em 1933. É apontada por alguns pesquisadores como uma das evidências que o escritor foi um precursor do romance policial de fundo psicológico.
''Estranha Confissão'' possui duas narrativas, uma dentro da outra, uma interligada com a outra. A primeira delas apresenta a história de um jornalista que recebe a visita de um ex-juiz de instrução na redação do jornal onde trabalha. O homem traz nas mãos o manuscrito de um romance chamado ''Um Drama na Caça'' que deseja publicar no periódico na forma de folhetim. Faz questão de frisar que trata-se de uma história real, presenciada por ele no passado.
A segunda narrativa é justamente o texto ''Um Drama na Caça'' em que o jornalista apresenta ao leitor. Revela a história de Petrovitch, um juiz de atua numa pequena cidade russa. Na região estão centradas as terras do conde Karnieiev, um homem que vive para beber vodka, comer e se divertir com a mulheres.
Petrovitch, apesar de não morrer de amores pelo conde, vive uma amizade regida por festas etílicas e devassas. Num desses encontros, ele conhecem uma jovem camponesa que mora na região e se encanta com sua beleza. Mas, para espanto dos dois, a moça se casa com um velho viúvo, funcionário do conde.
Com o tempo, Petrovitch e o conde seduzem, cada um a seu modo, a moça até ela se tornar amante de ambos. A situação provoca uma série de confusões e complicação até o dia em que, durante uma festa, ela é misteriosamente assinada.
Em ''Estranha Confissão'', Anton Tchekhov apresenta inicialmente todos os episódios que precedem o crime. Revela o perfil psicológico de cada personagem que posteriormente estarão sob suspeita de assassinato. O crime torna-se uma fatal consequência na história. Assim, o crime acontece apenas na reta final do livro.
Tchekhov coloca, nos olhos do leitor, todas as informações necessárias para solucionar o caso, realizar o papel de detetive e descobrir o culpado. Após o crime, apresenta os elementos finais em forma de investigação. E um dos suspeitos é justamente aquele que tem o poder constituído de encontrar o responsável.
''Estranha Confissão'' foi uma obra cultuada pelos escritores argentinos Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares. Chegaram a realizar uma edição do livro em língua espanhola em 1945. Segundo consta, os dois não tiveram pudores de interferir no texto original de Tchekhov, efetuando um corte aqui, inserindo alguma coisa ali. É nessa versão que se baseia a tradução em português que acaba de ser lançada pela Editora Planeta.
Na história de ''Um Drama na Caça'' o narrador encontra suposto culpado que acaba sendo condenado a anos de trabalhos forçados. Mas Tchekhov sabia que o leitor ficaria em dúvida se esse condenado seria realmente o assassino. Por isso, conclui seu romance com a primeira narrativa, quando o autor do manuscrito volta a visitar o jornalista para saber se o texto será publicado.
Na realidade, a função de detetive cairá sobre o primeiro leitor da história, o jornalista. Aquele que seria o foco principal, encontrar o culpado, torna-se secundário. Fato que sugere que Tchekhov entrega o papel de investigador, na verdade, a todo e qualquer leitor.

Serviço:
- Estranha Confissão, de Anton Tchekhov. Editora Planeta, tradução de Bernardo Ajzenberg, 248 páginas, R$ 35,00.

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