A juventude pode ser considerada um dos territórios mais amplos das certezas. As convicções contornam músculos empurrando a vida para frente em alta velocidade. Transformam os ossos em tempestades de satisfação ininterrupta. Um tempo onde o mundo deve ser atingido com sede e fúria.
A força das certezas da juventude está espalhada pelas páginas do novo romance do escritor Philip Roth, ''Indignação''. Além de sede e fúria, também há fiapos de medo e de dúvida geralmente presentes em qualquer convicção. Coisas que, na maioria das vezes, impulsionam para outras certezas, outras convicções. Ou mesmo para desbancar convicções.
Em seus dois romances anteriores, ''Homem Comum'' (Companhia das Letras, 2007) e ''O Fantasma Sai de Cena'' (Companhia das Letras, 2008), Philip Roth centrou foco na velhice diante da proximidade da morte. A decadência física e mental dando origem a desejos inconfessáveis. Uma engrenagem capaz de gerar uma fome imaginativa capaz de encobrir os buracos negros da existência.
Em ''Indignação'', Philip Roth deixa a velhice de lado para se ocupar do pólo oposto, a juventude. Narra a história de Marcus, um jovem soldado de 19 anos. O relato é reconstituição de suas lembranças numa cama de hospital do exército norte-americano em plena da Guerra da Coréia, no início da década de 50. Entupido de morfina, com ferimentos fatais, ele traça um mapa de seu destino.
Filho de humilde açougueiro judeu, Marcus foi o típico garoto exemplar. Dividia seu tempo entre a escola e o trabalho no açougue do pai, entre carnes e sangue. Com esforço, consegue ingressar na universidade. Com mais esforço, e uma dose de rebeldia, consegue sair de casa para cursar uma faculdade melhor, do outro lado do país.
Todo o foco de Marcus está centrado nos estudos. Seu grande objetivo é ser o melhor aluno e, se convocado para a guerra, não estar na frente de batalha. O medo da morte o persegue como um fantasma disforme. Assim, descarta todo tipo de contato social e emocional para ser o exemplar garoto nota 10.
O problema é que a dinâmica da vida coloca em seu caminho coisas que tumultuam suas certezas. Coisas como uma garota bonita, um colega malandro, uma estrutura educacional de fachada, uma família problemática, uma solidão desconhecida e muito mais. Coisas completamente normais, mas que fazem parte da existência justamente para reafirmar as certezas e igualmente, por outro lado, instaurar dúvidas sobre elas. Assim, de bom mocinho, Marcus se transforma num rebelde contido. Mesmo detendo sede e fúria, assume a forma de um rebelde das pequenas coisas.
Embora Philip Roth utilize sua capacidade de trabalhar, num único romance, dimensões históricas, sociais, políticas e comportamentais - numa espécie de fórmula segura -, o sentido de ''Indignação'' está sintetizado nas últimas linhas do romance: ''A forma terrível e incompreensível pela qual nossas escolhas mais banais, fortuitas e até cômicas conduzem a resultados tão desproporcionais.''
Nada mais do que o velho drama, entre as certezas e incertezas, em que atos ínfimos e banais, são capazes de gerar consequências monstruosas. Não se trata do tamanho das ações aparentemente inconsequentes, mas da dimensão que elas podem adquirir de maneira independente, como tempestades inesperadas e alheias a qualquer coisa. Apesar da incessante busca sobre o controle da existência, ela é descontrolada por natureza. Tanto faz se nas certezas ou incertezas.
Aos 75 anos de idade, Philip Roth é considerado um dos grandes autores da literatura norte-americano vivos. Recebeu os mais importantes prêmios literários de seu país e tem uma legião de leitores fiéis e críticos acalorados. Autor de mais de 20 romances, pelo menos 15 deles estão disponíveis em livrarias brasileiras.





Fragmento de 'Indignação' de Philip Roth
''Você é capaz de enfrentar uma gritaria histérica, se a coisa chegar a esse ponto? Será capaz de enfrentar um pedido desesperado? Será capaz de olhar para o outro lado quando alguém em sofrimento te suplicar e suplicar por alguma coisa que ela quer e você não vai dar? Sim, para um pai você podia dizer: 'Não se meta, me deixe em paz!'. Mas será que tem o tipo de força de que vai precisar agora? Porque você também tem consciência. Uma consciência que me orgulha saber que você tem, mas que pode ser sua inimiga. Você tem consciência, compaixão e também doçura - por isso me diga: sabe como fazer o que vai precisar fazer com essa garota? Porque a fraqueza de outra pessoa pode destruí-lo tanto quanto sua força. As pessoas fracas não são indefesas. A fraqueza delas pode ser sua força.''






Serviço
- Indignação
Autor - Philip Roth
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Jorio Dauster
Quanto - R$ 36 (176 pág.)

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