O sentimento de perda não parece ser o tipo de coisa que as pessoas penduram na parede da sala. Não é uma espécie de decoração que deixa a sala mais bonitinha. Aquele tipo de coisa que os visitantes elogiam quando se acomodam no sofá com uma xícara de café nas mãos.
O sentimento de perda parece ser muito mais o tipo de coisa que as pessoas guardam no bolso da camisa, nas gavetas do guarda-roupa, no envelope ao lado da cama, entre os livros da estante. Aquele tipo de coisa que nenhum visitante percebe.
No romance ''Sinuca Embaixo D'água'', a jovem escritora gaúcha Carol Bensimon abre lentamente os envelopes, retira lembranças das gavetas, investiga os bolsos da camisa, revira os livros das estantes. Seu objetivo está em procurar os elementos que fazem da perda um mecanismo de transformação e superação.
Lançado pela Companhia das Letras, ''Sinuca Embaixo D'água'' é um romance construído por várias vozes ligadas através de um mesmo fato: a trágica morte de uma garota de vinte e poucos anos num acidente de trânsito durante a madrugada. Uma linda garota chamada Antônia, admirada e adorada por três rapazes. Bernardo, seu suposto namorado, Camilo, seu fiel irmão mais velho, e Polaco, o dono do bar que todos frequentam.
Através das vozes dos três, muito mais que a figura de Antônia, a narrativa retrata o labirinto das lembranças. O passado de cada um ocupa lugar de destaque. A narrativa não apresenta apenas o processo mental e afetivo que acontece na cabeça daqueles que experimentam o sentimento de perda de alguém próximo, mas a revisão do passado como processo de superação.
Claro que há uma representação da transição da juventude para a maturidade, mas a autora não estabelece grandes distinções entre os dois pólos. Focaliza apenas a troca de uma dúvida por outra. Uma insatisfação por outra. Uma dor por outra. Como se a transição não tornasse os homens melhores ou piores, apenas mais conscientes dos dramas da existência.
Trata-se de um romance onde as ações acontecem no interior dos personagens, uma revisão do passado para o entendimento do presente. Uma das analogias utilizadas por Carol Bensimon para traduzir esse processo de reorganização afetiva após uma perda inesperada está na imagem de um jogo de bilhar embaixo d'água. Independente da exatidão da tacada, a trajetória da bola sempre será incerta. Lenta e caótica. Sob a água, tudo muda de figura. Diante da perda, o inesperado abre suas asas.
Nascida em Porto Alegre, em 1982, Carol Bensimon publicou apenas um livro antes de ''Sinuca Embaixo D'água'', o volume de contos ''Pó de Parede'' (Não Editora, 2007).

Serviço
- Sinuca Embaixo D'água
Autor - Carol Bensimon
Editora - Companhia das Letras
Quanto - R$ 36 (142 pág.)


Fragmento
''É como tirar os rollers depois de andar um bocado e sentir que os pés e o chão não se entendem mais. Você quer deslizar, passar flutuando pelas coisas e pessoas, e já não pode. Então pensa: Tudo bem, adiante, vamos caminhar agora, caminhem direito por favor, mas não tem jeito de conseguir sem um pouco de tempo, porque os rollers ainda estão em você, de certa maneira. O cérebro diz Caminhe, os pés Deslize. E caso alguém venha pela rua, estará pensando: olha lá um garoto com um grande problema! O que faz com que eu goste cada vez mais de Antônia, que dizia que o mundo era como um monte de gente recém-saída do oculista ainda sentindo o efeito do colírio-de-dilatar-pupilas: nos enche de mais luz do que podemos suportar e por isso ficamos sem ver nada. Mais luz, mais escuridão.

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