É como ter algo próximo das mãos e não conseguir tocar. Como ter uma imagem a dois palmos dos olhos e não conseguir enxergá-la com definição. É como ter o som próximo do ouvido e ser atordoado pelo silêncio. Como não poder tirar nada daquilo que parece dizer alguma coisa.
A sensação não é propriamente física, mas uma espécie de tentativa inconsistente de se aproximar do incompreensível. Uma tentativa de fazer das lacunas uma grafia desconhecida a ser decodificada. Tudo isso permeia a narrativa de "As Virgens Suicidas", romance de Jeffrey Eugenides.
Primeiro romance do escritor considerado uma das mais peculiares vozes da literatura norte-americana da atualidade, "As Virgens Suicidas" é uma viagem por recortes, lacunas, espaços em branco e sombras. Muitas sombras. A ideia de completude pode ser visualizada apenas naquilo que não pode se percebido.
Lançado originalmente em 1993, o livro ganhou projeção após ser transformado em filme por Sofia Coppola em 1999. A primeira edição chegou ao Brasil pela editora Rocco em 1996 e em seguida foi reeditado em formato de bolso pela L&MP. Agora a editora Companhia das Letras está relançando o romance com uma nova tradução.
"As Virgens Suicidas" narra a história de uma família de cinco jovens irmãs que decidem colocar um ponto final na existência. Mas o suicídio não é o tema principal do romance, é apenas a ponta do iceberg, a parte visível da tragédia. Aquilo que realmente interessa se manifesta através de lacunas e incompreensões.
Cecília (13 anos), Lux (14), Bonnie (15), May (16) e Therese (17) vivem num típico bairro americano da década de 70. As meninas vivem numa espécie de confinamento. Saem de casa para irem apenas à escola, onde o pai é professor, e às cerimônias religiosas na igreja, onde a mãe é devota. Não só um confinamento espacial, mas moral. Uma família tentando evitar que o mundano adentre pela porta.
A casa habitada pelas cinco lindas garotas é cobiçada por todos os garotos da rua e da escola. Ela possui um tesouro inacessível: a privacidade de cinco adolescentes desabrochando para a vida e para a sexualidade sob as rígidas rédeas dos pais. Uma família feliz perante toda a sociedade. Ou, como todas as famílias do lugar, fingindo serem felizes e saltitantes.
A ponta do iceberg surge quando Cecília, a mais louquinha das meninas, aparece na banheira com os pulsos cortados. Salva por paramédicos, ninguém encontra resposta ou sentido para o ato. E a própria garota faz questão de não ajudar na resposta. Poucos dias depois, em outra tentativa, Cecília obtém êxito. Assim uma sombra se instala na família. Uma sombra autofágica carente de sentido. As irmãs caem uma a uma sob os incrédulos olhos dos pais.
Ao mesmo tempo em que os pais fecham as meninas em casa, os vizinhos e a comunidade também elegem o distanciamento para resolução do problema. Há um isolamento provindo da própria família e um isolamento do mundo para com ela. Seus integrantes são colocados na geladeira. Representam o fracasso. Tornam-se invisíveis perante a cidade, embora todo mundo esteja de olhos colados neles.
Toda a história é narrada, décadas depois, por um grupo de garotos vizinhos das meninas. Enfeitiçados pela beleza das cinco irmãs, apaixonados por seus movimentos, o grupo passa a vida toda tentando elucidar os acontecimentos, preencher as lacunas. Montam um quebra cabeças com todas as informações a que têm acesso através de fragmentos, recortes, pedaços. Tudo envolto a espaços em branco, mistério e sombras.
A voz narrativa criada por Jeffrey Eugenides é ao mesmo tempo plural e singular. Essa é uma das particularidades do romance. Um jogo onde o particular torna-se coletivo e o coletivo torna-se particular. Um tabuleiro onde não é completamente dia, nem completamente noite. Um breve estado intermediário. Com um pé de cada um dos lados, a sensação é das personagens não pertencerem a nenhum deles. Não há encaixe. Nada se ajusta. Nem as garotas. Nem os garotos. No momento de perder a inocência, algo se manifesta para comprovar que a inocência já havia sido perdida muito tempo atrás.

Serviço:
"As Virgens Suicidas"
Autor – Jeffrey Eugenides
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Daniel Pellizzari
Páginas – 232
Quanto – R$ 39,50


Fragmento:
Depois delas, o que permaneceu não foi a vida, que sempre sobrepuja a morte natural, mas uma lista absolutamente trivial de fatos mundanos: um relógio tiquetaqueando na parede, uma sala na penumbra ao meio-dia e o ultraje de um ser humano pensando apenas em si mesmo. O cérebro dela se distanciando de todo o resto mas flamejando em pontos específicos de dor, ofensas pessoais, sonhos perdidos. Todos os outros entre queridos retrocedendo como gelo arrastado pela corrente, encolhendo até se tornarem pontos negros agitando os bracinhos, fora do alcance dos ouvidos. E então a corda presa na viga, o remédio para dormir colocado na palma da mão junto à linha da vida comprida e mentirosa, a janela escancarada, o forno ligado, enfim. Elas nos fizeram participar de sua própria loucura, porque não conseguíamos refazer seus passos, repassar seus pensamentos, e ver que nenhum deles conduzia até nós. E tivemos que esfregar os focinhos nos últimos rastros que elas deixaram, as marcas de lama no chão, as malas que servira de degraus, tivemos que respirar para sempre o ar dos cômodos que onde elas se mataram. No fim não importava quantos anos elas tinham ou que fossem meninas, mas apenas que as amamos, aqui em cima da casa na árvore, com cabelos rareando e barrigas moles, chamando-as para fora dos quartos onde entraram para ficar sozinhas para sempre.
(Fragmento de "As Virgens Suicidas" de Jeffrey Eugenides)

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