LEITURA - A ilusória sensação de conexão com o mundo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de maio de 2018
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha 2 

O lado mais interessante do prêmio Nobel de Literatura não está no reconhecimento, muito menos no merecimento do escritor agraciado. O lado mais interessante está no fato de sua obra receber visibilidade. Seus livros passam a ganhar edições e reedições chegando às mãos de um universo mais amplo de leitores.
O caso do escritor japonês Kazuo Ishiguro exemplifica o fato. Após receber o Nobel de Literatura de 2017, a editora Companhia das Letras reeditou, no final de 2017, sete romances de sua autoria: "Não Me Abandone Jamais", "Quando Éramos Órfãos", "Os Vestígios do Dia", "Noturnos", "Uma Pálida Visão dos Montes", "O Desconsolado" e "O Gigante Enterrado".
Dando continuidade, a editora relançou na semana passada "Um Artista do Mundo Flutuante", segundo romance escrito por Kazuo Ishiguro e publicado originalmente em 1986. Traz o relato de Ono, um velho pintor que assiste a juventude japonesa abandonar os antigos valores após a Segunda Guerra Mundial. Num típico retrato de conflito de gerações, Ono procura entender as mudanças do mundo entre a rabugice e a paciência.
A editora também acaba de colocar nas livrarias "Minha Noite no Século Vinte e Outros Pequenos Avanços", livro que traz o discurso proferido por Kazuo Ishiguro na cerimônia de entrega do Nobel ocorrida em setembro de 2017. No texto, relativamente breve, o escritor fala sobre como abraçou a literatura na juventude e como ela modificou sua maneira de ver o mundo. Mas, acima de tudo, deixa claro qual a sua intenção literária: "Para mim, o essencial é que a ficção transmita sentimentos que remetam ao que compartilhamos como seres humanos sobre fronteiras e separações."
Afirma que há um glamour exagerado em torno da ficção, uma máquina pesada que envolve a indústria do livro, do cinema, da televisão, etc. Mas o que, em essência, a ficção faz, é dizer como as pessoas se sentem: "É assim que me sinto. Você entende o que eu digo? Você também se sente assim?". Em outras palavras, a ficção seria uma identificação entre pessoas que não se conhecem. Ler, ouvir ou ver uma história seria uma experiência de empatia, de reconhecimento do outro, e claro, de auto-reconhecimento.
Em "Minha Noite no Século Vinte e Outros Pequenos Avanços", Kazuo Ishiguro assinala que consertar o mundo é uma tarefa inglória para a literatura. Mas se sente otimista em pensar que as letras podem pelo menos consertar a própria literatura para um possível papel no futuro da humanidade.
Ishiguro defende que o mundo literário deve ser expandido para incorporar mais e mais vozes além da zona de conforto das culturas elitistas. Propõe ao leitor entrar em contato com culturas literárias pouco conhecidas, escritores de países distante e igualmente, olhar com atenção para autores da própria comunidade.
Também defende a ideia de que, no mundo atual, escritores e leitores devem ter cuidado para não cair no conservadorismo da definição de "boa literatura". Para Ishiguro, as novas gerações que estão chegando podem ter outras maneiras de narrar histórias, podem criar formas narrativas desconcertantes. A melhor opção seria manter a mente aberta em relação tanto ao conteúdo quanto à forma. E conclui: "Em tempos de divisões perigosamente crescentes, precisamos ouvir, simplesmente ouvir."
Kazuo Ishiguro nasceu em Nagasaki em 1954, quase dez anos após a explosão da bomba atômica que dizimou a população civil da cidade japonesa em 1945. Com cinco anos de idade se mudou com a família para a Inglaterra. Seu pai era um cientista que desejava permanecer apenas dois anos em Londres, realizar um trabalho e retornar ao Japão. Uma volta que nunca aconteceu. Ishiguro nunca voltou a residir em seu país de origem. Sempre escrevendo em língua inglesa, na Europa é considerado um escritor inglês. Na Japão é considerado um escritor japonês, sem nunca ter escrito uma única obra em língua japonesa. A academia sueca, ao conferir o Nobel de Literatura à Kazuo, justificou a premiação com as seguintes palavras: "Seus romances, de grande força emocional, revelaram o abismo sob nossa sensação ilusória de conexão com o mundo".
Serviço:
"Minha Noite no Século Vinte e Outros Pequenos Avanços"
Autor Kazuo Ishiguro
Editora Companhia das Letras
Tradução Antônio Xerxenesky
Páginas 64
Quanto R$ 32,90

"Um Artista do Mundo Flutuante"
Autor Kazuo Ishiguro
Editora Companhia das Letras
Tradução José Rubens Siqueira
Páginas 232
Quanto R$ 49,90

[left]Fragmento
Se você se deparasse comigo no outono de 1979, teria, talvez, dificuldade para me situar em termos sociais ou até mesmo raciais. Eu estava, então, com 24 anos. Minhas características físicas eram as de um japonês, mas ao contrário da maioria dos homens japoneses vistos na Inglaterra daquela época, meu cabelo ia até os ombros e eu usava um bigode inclinado para baixo como o de um marginal. O único sotaque discernível na minha fala era o de alguém que cresceu na região sul da Inglaterra, às vezes com inflexões do vernáculo lânguido e já datado da era hippie. Se conversássemos, poderíamos discutir o Carrossel holandês do futebol ou o último disco de Bob Dylan, ou talvez o ano em que passei trabalhando com moradores de rua em Londres. Se você mencionasse o Japão, me perguntasse sobre a cultura de lá, poderia até detectar um traço de impaciência na minha fala ao me ouvir declarar minha ignorância, pelo fato de eu nunca mais ter pisado naquele país nem para as festas de fim de ano desde que saí de lá, com cinco anos.
(Fragmento de "Minha Noite no Século Vinte e Outros Pequenos Avanços", de Kazuo Ishiguro)[/left]


