LEITURA - A ilusão da verdade
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de fevereiro de 2004
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 
''O que é a justiça? Temos um sistema de leis que é um sistema lógico, e as raízes desse sistema são sempre subjetivas. A justiça se encontra diante de um fato, um fato passado, e tem de estabelecer a verdade sobre o que se passou. Isso já é uma ficção. Sempre é possível que a verdade seja outra. É impossível reconstituir a verdade. A verdade é uma ficção.''
Com essas palavras o escritor suíço Friedrich Durrenmatt (1921 - 1990) declarava seu ceticismo em relação à justiça, uma das virtudes mais cultuadas do mundo contemporâneo. Para ele, a justiça seria uma falácia por fincar seus alicerces numa falsa abordagem da verdade. Se a verdade converteu-se em ficção, a justiça seguiu caminho semelhante.
A ferina ironia de Durrenmatt com relação à verdade está presente em várias de suas obras como ''O Juiz e Seu Carrasco'' (romance) ''A Visita da Velha Senhora'' (peça teatral) e ''A Pane'' (conto). As duas primeiras bem conhecidas do leitor brasileiro - ao lado dos romances ''A Suspeita'', ''A Tarefa'' e ''Vale do Caos'' e das peças ''Os Físicos'', ''Frank V'' e ''O Casamento do Senhor Mississipi''. A terceira recebe agora sua primeira tradução para a língua portuguesa, integra o volume ''A Pane - O Túnel - O Cão'' lançado pela Editora Códex.
O livro traz três contos exemplares de Durrenmatt. Todos trabalhando com uma certa atmosfera sombria, quase kafkaniana, onde o destino das personagens são alterados de uma hora para outra graças a eventos absurdos. E, após a alteração, percebem que estão muito próximos de provar a verdade através de uma experiência reveladora. Uma verdade sempre atordoada por um tormento que pacifica a alma.
Em ''A Pane'' o autor narra a história de Alfredo, um caixeiro-viajante que, após ter um problema com o motor de seu carro, se vê obrigado a dormir num pequeno vilarejo. Encontra abrigo noturno na residência de um juiz aposentado. Durante o jantar, uma verdadeira orgia gastronômica regada a nobre pratos e raros vinhos, é impelido a participar de um excêntrico jogo com a participação de outros senhores da justiça aposentados.
O jogo consiste em Alfredo ser julgado por um tribunal formados pelos convidados, com direito a um advogado de defesa, um de acusação, um juiz e um carrasco encarregado de cumprir a sentença. Durante o jantar, Alfredo vai narrando acontecimentos de sua vida e passa a ser acusado de um assassinato exemplar e calculado pela beleza da destreza.
Quanto mais vinhos e pratos são devorados, mais instigante torna-se o julgamento, o jogo. A situação assume proporções irônicas e bizarras, com o acusado aceitando um crime que não cometeu e atingindo o ápice da felicidade por ser condenado por ele. Realidade e fantasia formam um só massa nas mãos de Durrenmatt, numa postura ironicamente corrosiva em relação ao espetáculo que a justiça é capaz de proporcionar.
Em ''O Túnel'', o escritor descreve a estranha viagem ferroviária de um jovem estudante. Durante o percurso, o estudante percebe que o túnel percorrido pelo trem se estende em demasia. Incomodado pelo túnel interminável, começa e pensar que há alguma coisa errada com a realidade. Tendo consciência de que todos os outros passageiros não percebem a anomalia, resolve consultar o chefe da locomotiva.
O responsável revela que está a par da anomalia mas não pode fazer nada, a não ser esperar o fim de do túnel que se apresenta interminável de maneira inexplicável. A história é uma espécie de parábola sobre a ausência de luz no início, no meio e no fim do túnel, onde o absurdo torna-se parte integrante da realidade. Levando a crer, assim, que não há nada mais absurdo que a própria realidade.
O conto que fecha o volume, ''O Cão'' é o mais enigmático dos três que integram o livro. Durrenmatt narra a trajetória de um homem instigado por um misterioso mendigo que passa seus dias pregando a ninguém passagens bíblicas pelas ruas da cidade, resolve segui-lo para elucidar sua existência. O que atormenta e seduz o homem é o companheiro constante do pregador, um enorme cão negro de olhos amarelos. Sinistro, o animal parece pertencer a um outro universo, dotado de um poder indecifrável.
Os três contos presentes em ''A Pane - O Túnel - O Cão'' seduzem tanto pela condução narrativa quando pelo conteúdo inesperado e ferino colocado em evidência. Durrenmatt, considerado um dos grandes autores da língua alemã do século 20, coloca o dedo em feridas que a normalidade classificou como sanadas. Instaura um questão dolorida: se princípios como verdade e justiça tornaram-se falsos, quais aqueles que ainda sobrevivem íntegros?
Serviço:
- ''A Pane - O Túnel - O Cão'' de Friedrich Dürrenmatt, Editora Códex, tradução e introdução de Marcelo Rondinelli, 110 páginas, R$ 25,00.


