LEITURA - A igualdade do fim
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 25 de novembro de 2015
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Ele é conhecido como o singelo veadinho do desenho animado da Disney. Aquele bichinho fofinho que precisa enfrentar os perigos da floresta ao lado de seus simpáticos amiguinhos igualmente fofinhos.
A figura de Bambi foi inegavelmente popularizada pelo desenho da Disney, lançado em 1942. Uma popularidade reforçada pelas montanhas de adaptações do filme em livros para crianças. Com a massificação ao longo do tempo, o Bambi original, aquele criado pelo escritor austríaco Felix Salten, caiu no limbo.
Parece que a versão animada da Disney se tornou maior que o livro que deu origem ao filme. Publicado originalmente em 1923, "Bambi - Uma História de Vida na Floresta" já era um romance relativamente conhecido antes de ser adaptado para o cinema, mas o filme e as adaptações acabaram engolindo quase que completamente a obra literária.
Para quem deseja conhecer o texto original de Felix Salten, a boa notícia é que a editora Cosac Naufy acaba de lançar uma edição de "Bambi" com o texto integral traduzido diretamente do alemão. Uma edição graficamente aconchegante acompanhada com ilustrações de Nino Cais.
Na verdade Bambi não é um veado, mas um cervo. Seu nome é uma abreviação de "bambino", palavra italiana que significa criança (bambino para menino e bambina para menina). Como todos sabem, "Bambi" narra basicamente a trajetória de um bicho, do momento de seu nascimento ao momento em que se torna adulto. O personagem passa pela infância com toda ingenuidade característica. E aos poucos vai aprendendo que a sobrevivência não é uma eterna piscina de bolinhas.
Além de todo o ambiente de plantas, bichos e intempéries, Bambi entra em contato com a morte. Na floresta há as presas e os predadores e ele logo aprende que apesar de assustadora, a morte faz parte do meio ambiente em que vive. Alguns bichos se alimentam de plantas, outros se alimentam de carne. Mas há um perigo ainda maior, representado pela imagem do homem.
Em toda a narrativa do livro, o autor não nomeia "homem" como aquele que mata os cervos e outros bichos. Nomeia apenas como "Ele" ou "Eles". A figura humana assume a forma do caçador impiedoso e invencível. Suas armas de fogo não podem ser superadas apenas com o corpo em fuga dos animais. E mesmo assim, são quase divinos.
Diante das mortes constantes e sem possibilidade de solução, a figura do caçador torna-se o "todo-poderoso". O paradoxo, na cabeça dos bichos, está no fato de que, ao mesmo tempo em que o homem mata, também oferece abrigo e acolhimento. Nada mais do que leitura básica: o animal selvagem (distante) representa o inimigo a ser dizimado, e o animal domesticado (próximo) representa o amigo a ser cuidado.
Ao lado de borboletas esvoaçantes, flores estonteantes, cantos de aves atordoantes, plantas extasiantes e bichos maravilhosos, a narrativa de Felix Salten coloca como foco a morte como uma certeza. Existe a forte ideia da sobrevivência, uma verdadeira batalha que ganha projeção na proteção da própria vida.
O clímax do aprendizado de Bambi não está apenas em saber que tudo aquilo que está vivo pode morrer. Que pode, fatalmente, padecer sob as garras dos predadores ou pelas mãos dos homens. Mas a grande questão reside em que Bambi, pelas mãos de um velho cervo, consegue entender que o homem, aquele que mata, o predador intocável, também morre. O homem perece igualmente como todos aqueles que ele faz padecer.
O grande predador superior, o homem, aquele que mata com ferramentas infalíveis, também morre. E morre pelas mesmas ferramentas que utiliza para matar. A trajetória de Bambi desenha uma ponte entra a humanização dos animais e bestialização do homem. Tudo fica igualado.
Felix Salten (pseudônimo de Siegmund Salzmann) nasceu em 1869, em Budapeste, na Hungria. Com poucos meses de vida sua família se mudou para Viena, na Áustria. Escritor autodidata desde a juventude, produziu todo tipo de coisa: contos, romances, peças de teatro, livretos de ópera, poesias, textos jornalísticos, ensaios, crítica teatral, roteiros de filmes, etc.
Com a ascensão do regime nazista na Alemanha na década de 1930, Felix Salten fixou residência em Zurique, na Suíça, onde viveu até sua morte, em 1945. Por ser judeu, sua obra literária foi banida do território alemão por Adolf Hitler. O nazismo considerava "Bambi" uma alegoria política ao tratamento dispensado aos judeus na Alemanha.
Pode parecer que os nazistas colocaram chifre de cavalo na cabeça de um cervo, como também pode ser uma das leituras da obra na época. Mas "Bambi", ao leitor de hoje, se encaixa muito mais como uma história sobre a preservação ambiental da vida nos ambientes naturais. E lembrar, de maneira singela, que todo homem morre como todo e qualquer animal, como todo e qualquer vegetal. A velha igualdade do fim.
Serviço:
"Bambi"
Autor Felix Salten
Ilustrações Nino Cais
Editora Cosac Naify
Tradução Christine Röhrig
Páginas 224 (capa dura)
Quanto R$ 49,90


