LEITURA - A hostilidade da civilização
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de maio de 2010
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Estranheza. Desconforto. São essas as duas sensações que podem invadir o leitor através das páginas de ''Coração Apertado'', primeiro romance da escritora francesa Marie NDiaye publicado no Brasil. Algo como uma paranoia que resolve colocar o dedo em cada hora do dia, em cada sinapse distraída.
Lançado pela editora Cosac Naify, a obra pode ser descrita como uma espécie de parábola do mal-estar do mundo contemporâneo. Aquele mal-estar que bate na pele das pessoas quando o mundo começa a olhar torto para elas, com um desprezo gélido e cruel. Aquele deslocamento inexplicável que surge quando o mundo começa a chutar e empurrar o ser humano escada abaixo.
Marie NDiaye, aos 43 anos, é incensada como uma das grandes expoentes da literatura francesa do século 21. Em 2009, entrou para a história ao ser a primeira mulher negra a ganhar o cultuado Prêmio Goncourt com o romance ''Três Mulheres Poderosas'' (Trois Femmes Puissantes) previsto para ser lançado no Brasil no segundo semestre de 2010.
''Coração Apertado'' traz o relato paranóico de Nadia, uma pacata professora que, de um momento para outro, começa a ser hostilizada por todos. Por alunos, funcionários da escola, vizinhos e qualquer um que a encontra pela frente. Tudo sem nenhum motivo palpável.
Nesse processo, seu marido é ferido gravemente, também sem motivo, e se isola no quarto se negando ao tratamento. Em pouco tempo Nadia também passa a ser hostilizada pelo esposo. A única pessoa capaz de não hostilizá-la é um desconhecido que invade sua casa para cuidar de seu marido.
Em ''Coração Apertado'' nada é apresentado como fato, tudo é sugerido de maneira vaga ou dúbia. Imersa numa atmosfera tipicamente kafkaniana, Nadia passa a rodar numa espiral paranóica infinita com o coração cada vez mais apertado. Paralelo ao abalo psíquico e emocional, também passa a sofrer transformações físicas. Seu corpo começa a ganhar volume de um momento para outro, sem razão definida, seja obesidade, menopausa ou gravidez. Sem saber o motivo do mundo se virar contra ela, Nadia cai numa viagem individual em direção ao passado numa espécie de acerto de contas.
A narrativa desenvolvida por Marie NDiaye em ''Coração Apertado'' possui a capacidade de impulsionar o leitor a experimentar as mesmas sensações vividas pela personagem. A paranóia, o desconforto, a hostilidade e a estranheza são todos depositados nas mãos do leitor sem nenhuma espécie de pirotecnia.
No romance, não estão em jogo explicações de nenhum tipo. Todo foco está em expor um problema, não interessa sua resolução. E é nesse sentido que a narrativa ganha ares de parábola, um mal-estar que não oferece suas origens nem finalidades. O grande sentido só pode ser encontrado naquilo que não está sendo pronunciado. A autora não está brincando de literatura ao focar o real conteúdo naquilo que não é expresso pelo verbo.
Filha de mãe francesa e pai senegalês, Marie NDiaye cresceu na periferia de Paris criada apenas pela mãe. Publicou seu primeiro livro com apenas 17 anos e escreveu de tudo, romances, contos, roteiros de cinema, peças teatrais e livros infantis. Há dois anos abandonou a França, numa espécie de auto-exílio, para viver na Alemanha com o marido e seus três filhos. Para ela, uma forma de escapar da postura cruel do governo francês para com os pobres e imigrantes.
Serviço
- Coração Apertado
Autora - Marie NDiaye
Editora - Cosac Naify
Tradução - Paulo Neves
Quanto - R$ 50 (272 páginas)
''Um rapaz grandalhão que vinha a nosso encontro ouve o som da minha voz. Seu rosto é tão agradável, tão perfeitamente simpático, que a prudência é a última coisa a passar pela minha cabeça. Chego a esboçar um vago sorriso, evitando apenas fitá-lo nos olhos. O Ange é agora a única criatura que posso olhar bem de frente, embora isso aconteça cada vez menos, por causa do embaraço que nos oprime, um diante do outro, o pavor de um se espelha nos olhos do outro, nos deixa inaptos para consolar, impedidos de dar e incapazes de receber consolo.
O jovem se detém ao passar por mim. Põe-se a esfregar as mãos nas coxas e diz, latindo:
- Que foi? Qual é?
- Nada, não - respondo.
O frio penetra sob a minha gola. Sinto o frio descer pelas castas, sinto as pálpebras se enrugarem. Uma repentina vontade de urinar me contrai o baixo-ventre. Ele diz ainda:
- Você olhou para mim? Sorriu para mim? Com que direito você sorri para mim, sua imunda?
(Fragmento de Coração Apertado de Marie NDiaye)


