Um sequestro calculado. Tudo estudado. Um grupo de bandidos planeja colocar as mãos no filho de um rico publicitário, o grande responsável pela campanha eleitoral do presidente do Brasil. O resgate da criança seria a transferência do dinheiro oriundo de corrupção política ocorrida durante o governo de Fernando Collor de Mello - o primeiro presidente do país eleito democraticamente após a ditadura do regime militar.
Os sequestradores são antigos funcionários dos regimes ditatoriais da América Latina. Profissionais formados durante a repressão política. Com o renascimento do regime democrático, eles passaram a ganhar dinheiro sequestrando milionários. E o Brasil se revela um mercado promissor.
O problema começa quando a quadrilha comete um equívoco. Em vez de sequestrar o filho do poderoso publicitário, leva por engano o filho da empregada doméstica da mansão da família. Tudo pelo fato do filho da empregada ser loiro de olhos azuis e pegar uma carona na Mercedes-Benz do patrão da mãe.
Essa é trama do novo romance do jornalista carioca Edney Silvestre, ''A Felicidade é Fácil'', que acaba de ser lançado pela editora Record. Com um enredo policial que acontece em apenas 24 horas, o livro traça um painel político e social do Brasil durante o governo de Collor de Mello.
Edney Silvestre é hoje o mais novo escritor a ganhar evidência da mídia como revelação literária. Tudo começou quando seu primeiro romance, ''Se Eu Fechar os Olhos Agora'', ganhou o Prêmio Jabuti de melhor romance de 2010 e o prêmio São Paulo de Literatura do mesmo ano.
''A Felicidade é Fácil'' segue o mesmo caminho de ''Se Eu Fechar os Olhos Agora''. Edney Silvestre utiliza a mesma junção de dois gêneros literários, o romance policial e o romance político. A diferença está no fato do novo romance apresentar uma estrutura narrativa com algum grau de complexidade. Além do narrador, as vozes dos personagens pontuam os episódios em ordem não cronológica.
Em ''A Felicidade é Fácil'' o autor faz um bom uso do contexto político do Brasil do início da década de 90, mas não aprofunda nenhuma questão. Edney Silvestre trabalha com um gênero pouco explorado pelos escritores brasileiros contemporâneos, o romance político. Esse parece ser o elemento surpresa que vem despertando a atenção dos leitores.
O destaque das personagens de ''A Felicidade é Fácil'' fica nas costas das mulheres. A empregada doméstica do publicitário que, na metrópole, luta pela sobrevivência e sonha em voltar para suas origens rurais, comprar um pedacinho de terra e viver como era quando criança. A esposa do publicitário, uma jovem de origem pobre que, por sua beleza, torna-se acompanhante de luxo do empresário até, por desejar ficar longe da miséria, se casar e viver numa relação onde lhe cabe apenas obedecer. A filha de um policial aposentado que trabalha como motorista do publicitário, uma garota que deseja fugir de sua condição de faxineira imigrando para algum país do primeiro mundo.
Essas três mulheres, insatisfeitas e infelizes, fazem o contraponto ao todo satisfeito e feliz publicitário que manuseia milhões em dinheiro provindo de corrupção. Os vilões da história não são apenas os bandidos sequestradores, mas também a guage de publicitários responsáveis pelas campanhas políticas. Os vilões objetivos e subjetivos.
A principal ironia presente em ''A Felicidade é Fácil'' reside numa ideia de preconceito. Os sequestradores, ao verem uma criança loira e olhos azuis, a identificam como filho de família rica. A criança, na verdade, é o filho da empregada. O filho dos ricaços se revela moreno, de olhos negros e nariz achatado.
Esse equívoco dos bandidos não é pura ficção. Edney Silvestre se inspirou num fato real. No início da década de 90, na cidade de São Paulo, isso realmente aconteceu. Os sequestradores levaram, por engano, não o filho de um empresário, mas o filho da emprega que pegava uma carona no carro do milionário.
Em ''A Felicidade é Fácil'' há uma certa valorização de elementos redundantes e o descarte de elementos reveladores. Vale citar dois exemplos. Numa das cenas, o autor, descrevendo uma manifestação popular pelo fim das eleições indiretas no final da ditadura militar, reproduz o hino nacional só porque os participantes estão entoando o hino.
Por outro lado, Edney Silvestre deixa de desenvolver cenas literariamente exemplares. Deixa, por exemplo, de descrever a situação em que os sequestradores tentam gravar uma fita cassete com a criança sequestrada solicitando o resgate. Detalhe: a criança é surda e muda. Algo que qualquer leitor do gênero policial visualiza logo nas primeiras páginas do romance, porque essa informação aparece no começo da narrativa. E espera pela sua resolução. Mas ela não aparece. A aposta do autor é em outra direção.

Serviço:
- A Felicidade é Fácil
Autor - Edney Silvestre
Editora - Record
Páginas - 224
Quanto - R$ 29,90

Fragmento:
- Vamos ficar ricos.
Desta vez o sócio se interessou. Colocou a caneta de lado, girou a cadeira e aguardou.
- Vamos criar campanhas políticas dos candidatos às eleições diretas. Inclusive as dos candidatos à presidência.
- O próximo presidente do Brasil será Mário Andreazza. Já está escolhido pelos militares. Sem eleições diretas.
- Talvez. Mas depois dele, terá que ser um civil. E precisará anunciar no rádio, na televisão, nos jornais.
Oportunidades como aquela surgem apenas uma vez a cada geração, Ernesto compreendia, encantado com as bandeiras vermelhas e verde-amarelas agitadas na praça. Aquele povo todo encontrara um rumo e um objetivo comum. Mesmo que levasse dez anos, e não mais que isso, talvez cinco, se o movimento crescesse na proporção que crescia, os militares cederiam. Era a melhor forma de irem colocando seus investimentos e seus herdeiros nas indústrias e postos certos. Permitiriam que o presidente fosse escolhido em eleições diretas. Haverá candidatos. Genuínos e aventureiros. Os candidatos terão que fazer campanhas. Campanhas eleitorais movimentam milhões. Os empreiteiros contribuem, os pecuaristas contribuem, os industriais contribuem, as multinacionais de cigarros contribuem, o dinheiro vem de todos os lados. Uma parte entra na campanha oficialmente. Outra chega por fora. Aliados como ele e Olavo podem levar esse dinheiro a cofres seguros fora do Brasil. Cobrando um percentual justo, evidentemente.

(Fragmento de ''A Felicidade é Fácil'' de Edney Silvestre)

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