Ninguém entendeu muito bem, mas o fato é que "Toda Poesia" do poeta curitibano Paulo Leminski, lançado pela editora Companhia das Letras em fevereiro deste ano, já vendeu mais de 50 mil exemplares. Tratando-se de um livro de poesia, parece até um milagre de outro mundo.
O motivo do milagre é múltiplo, vasto e intrincado. Começa com algo muito básico: os livros de poesia de Leminski estavam fora de catálogo há 15 anos, eram objetos raros até em sebos. E termina com um motivo simples: sua poesia detém um alto grau de comunicabilidade que não se perdeu ao longo das décadas. Entre o básico e o simples existe uma constelação de suposições.
Aproveitando a maré, a Companhia das Letras está relançando "Vida", que chega às livrarias amanhã. O volume reúne quatro biografias escritas por Leminski na década de 80: "Cruz e Sousa - O Negro Branco" (Brasiliense, 1983), "Bashô - A Lágrima do Peixe" (Brasiliense, 1983), "Jesus a.C." (Brasiliense, 1984) e "Trótski - A Paixão Segundo a Revolução" (Brasiliense, 1986).
Pouco antes de morrer, em 1989, Leminski reuniu os quatros livros num único volume, intitulado "Vida". Lançado postumamente pela editora Sulina em 1990, a obra teve duas pequenas tiragens e sumiu do mapa. Nas palavras de Leminski, seu objetivo era revelar quatro modos de como a vida pode se manifestar: "A vida de um grande poeta negro de Santa Catarina, simbolista, que se chamou Cruz e Sousa; Bashô, um japonês que era samurai, abandonou a classe samurai para se dedicar apenas à poesia e é considerado o pai do haikai; Jesus, profeta judeu que propôs uma mensagem que está viva dois mil anos depois; Trótski, o político, militar, ideólogo, que ao lado de Lênin realizou a revolução russa, a maior de todas as revoluções porque revolucionou profundamente a sociedade dos homens. A vida se manifesta, de repente, sob a forma de Trótski, ou de Bashô, ou de Cruz e Souza, ou de Jesus. Quero homenagear a grandeza da vida em todos esses momentos".
O que mais chama a atenção de "Vida" não são informações sobre a existência dos biografados, mas a leitura que Leminski faz dos biografados. O grande mérito dos textos está em misturar dois gêneros, biografia e ensaio, de maneira instigante. As conexões criadas oferecerem novos sentidos e abordagem desafiadores. Essa é a marca de Leminski nas palavras.
Para apresentar os sentimentos que provocavam furacões dentro do poeta brasileiro Cruz e Sousa (1861 - 1898), Leminski, por exemplo, estabelece a conexão entre três sentimentos históricos: o japonês "sabishi" (tristeza), o europeu "spleen" (tédio) e o africano "banzo" (tristeza mortal). Para situar outro exemplo, as práticas zen do poeta japonês Matsuo Bashô, (1644 - 1694), Leminski associa os conceitos sobre o cinismo do filósofo grego Diógenes. E assim segue em outras dezenas de exemplos, de conexões, associações e abordagens.
Lado a lado, as quatro biografias deveriam formar um conjunto, segundo o objetivo do autor, mas não é isso o que acontece na prática. Há uma unidade exemplar nos textos sobre Cruz e Souza, Bashô e Jesus. Já o texto sobre Trótski parece um óvni deslocado do conjunto. Duas coisas ficam evidentes. A primeira é que Trótski é o único não poeta dos quatro biografados (até mesmo Jesus é tratado como poeta, autor de parábolas geniais). A segunda é que a linguagem utilizada em "Trótski" é completamente diferente da linguagem trabalhada por Leminski em "Cruz e Sousa", "Bashô" e "Jesus". Juntos, esses dois pontos geram um terceiro: sobre a biografia de Trótski recai um maior peso histórico, já que para apresentar o biografado foi necessário apresentar a história da revolução russa.
"Vida" não mostra apenas como a vida pode de manifestar, mas também como ela pode ser signo digno de leituras e mais leituras. Paulo Leminski Filho (1944 - 1989) oferece algumas delas com a intensidade de um apaixonado.

Serviço:
"Vida - Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski"
Autor - Paulo Leminski
Editora - Companhia das Letras
Páginas - 392
Quanto - R$ 46 (livro) e R$ 32 (e-book)

Uma pergunta nunca feita, pode, agora, ser perguntada. De que vivia Jesus durante os três anos de pregação e docência? Que fosse carpinteiro como o pai Yosef, pouco dúvida, os ofícios, no Ocidente, passando de pai para filho, ao longo dos séculos. Curioso, porém, que nenhuma parábola sua tenha como tema a arte da carpintaria. Suas metáforas e apólogos são todos extraídos da vida agrícola. Ou piscatória. Para um poeta como ele, talvez, seu ofício do dia-a-dia não oferecesse estímulo bastante para a poesia. Talvez, à luz de uma estética da recepção, adequasse seu discurso ao universo dos pequenos lavradores e pescadores dentre os quais arrebanhou seus primeiros seguidores. O fato é que, em nenhum momento, os evangelhos o mostram "trabalhando". A não ser aquele trabalho superior, que é o exercício da vida do espírito. Em nenhum momento, Jesus planta, colhe, cozinha, serra, tece ou pesca. Tudo o que faz é pregar. Seu pai Yosef também pregava pregos na madeira, coisa que Jesus devia saber bem. Só que a pregação de Jesus é feita com outros pregos. Pregos conceituais. Pregos-signos. Os pregos que um dia pregariam a ele, carpinteiro, numa cruz de madeira. (Fragmento da biografia "Jesus a.C." que integra "Vida" de Paulo Leminski)
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