Daniel Galera: livro sobre as frustrações e angústia da geração que apostou na internet como território sem limites
Daniel Galera: livro sobre as frustrações e angústia da geração que apostou na internet como território sem limites | Foto: Renato Parasa/Divulgação



Foi uma época de euforia. Sinais de pólvora de uma nova revolução podiam ser vista nos olhos dos jovens. A possibilidade de comunicação infinita, a liberdade de expressão sem amarras. Tudo de portas e janelas escancaradas.
Dezesseis anos atrás, na virada no milênio, a internet se apresentava como uma revolução. A possibilidade de colocar toda e qualquer informação para circular instaurou uma euforia irresistível. Os jovens, que entraram de cabeça nessa vertigem, acreditavam que o mundo nunca mais seria o mesmo. Que as pessoas nunca mais seriam as mesmas. Que a literatura nunca mais seria a mesma.
Doce ilusão. Dezesseis anos depois o mundo pode ter se tornado completamente outro, mas as pessoas permaneceram as mesmas. A literatura permaneceu igualmente a mesma. A internet, como nova ferramenta, se tornou a galinha dos ovos de ouro de uma nova economia. Mas não resolveu em sentimento básico: a angústia humana. Ou pelo menos a angústia de uma geração que se deu conta do teor ilusório dessa revolução.
Em seu novo romance, "Meia-Noite e Vinte", o escritor gaúcho Daniel Galera coloca o dedo na ferida da angústia de uma geração que, na virada do milênio, colocou fé na internet como uma ferramenta de mudança radical. Uma ferramenta que simbolizava a liberdade e a autonomia que todas as gerações anteriores sonharam.
Lançado pela editora Companhia das Letras, "Meia-Noite e Vinte" narra a trajetória de um grupo de jovens amigos que criam um dos primeiros e-zines brasileiros, em 1999, na cidade de Porto Alegre. A intensidade da aventura, associada ao fantasma do "bug do milênio" e o possível apocalipse na virada do milênio, cria uma forte relação entre os quatro amigos (Andrei, Aurora, Antero e Emiliano), jovens que levam uma desencanada vida de rebeldes estudantes universitários.
Após viver uma experiência de vanguarda com o e-zine e concluírem seus respectivos cursos universitários, os quatro amigos tomam caminhos diferentes. Andrei torna-se um respeitado escritor, o grande representante de sua geração. Aurora torna-se uma bióloga a caminho do doutorado com pesquisa em microorganismos. Antero torna-se um rico e influente publicitário. Emiliano torna-se um jornalista free-lancer lutando para pagar as contas.
Após anos distanciamento, eles se encontram, quinze anos depois, no enterro de Andrei, assassinado durante um estúpido assalto no centro de Porto Alegre. O reencontro de Aurora, Antero e Emiliano abre uma janela para que os três voltem ao passado e redimensionem a inominável angústia que sentem aos trinta e poucos anos com a juventude devidamente enterrada.
"Meia-Noite e Vinte" é narrado pelas vozes de três personagens diferentes: Aurora, Antero e Emiliano. Algo novo na literatura de Daniel Galera que, em seus romances anteriores, sempre optou por uma única voz em primeira pessoa. A voz do quarto personagem, Andrei, é suprimida, permanecendo nas garras do silêncio. O leitor entra em contato com sua existência apenas através das vozes dos três amigos. Ou seja, um dos personagens principais é completamente invisível, é apresentado apenas pela visão dos outros três personagens.
A sensação que o romance provoca é sintomática. Após todos os sonhos e realizações, pirações e ousadias, aspirações e criações da juventude, a ficha cai em algum momento da idade adulta. E nesse espaço onde nascem frustração, fracasso e impotência, é justamente onde nasce a angústia diante do nada.
A potência deixa de ocupar espaço. Em seu lugar, entram as promessas não cumpridas e os sonhos não realizados. E principalmente desejos reprimidos, justamente numa geração que tinha toda liberdade a seu dispor.
É obvio que em "Meia-Noite e Vinte" Daniel Galera desenha um retrato de sua própria geração. A jornada daqueles que apostaram em uma nova ferramenta que poderia mudar o mundo, transformar a linguagem, revolucionar a literatura, redimensionar a vida as pessoas. Mas tudo ficou quase igual ao que era antes. Informação e comunicação deixaram de ser uma conquista para ser tornarem mercadoria.
A ressaca da revolução da internet é límpida em "Meia-Noite e Vinte". Um romance claro, mas devidamente coroado de dúvidas e silêncios. Uma narrativa onde a angústia, que parecia algo obsoleto com as novas tecnologias, se apresenta num dia de calor, de chinelos, calção e sem camisa. Esparramada tranquilamente do sofá da sala com o ventilador ligado, olhando atentamente para o nada, a angústia ainda tem algo a dizer.

Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - A grande ressaca da geração internet
| Foto: Divulgação



Serviço
"Meia-Noite e Vinte"
Autor – Daniel Galera
Editora – Companhia das Letras
Páginas –
Quanto – R$ 34,90 e R$ 23,90 (e-book)

"Nós tivemos a oportunidade de encenar nosso apocalipse de mentirinha, eu, Aurora, Emiliano e Andrei. Para que o fim do mundo não nos atingisse, passamos a virada do milênio acampados num sítio isolado que pertencia à família de Emiliano, um lugar de morros pedregosos, perto da região carborífera, sem energia elétrica nem outros seres humanos num raio de muitos quilômetros. Brindamos ao apocalipse com cachaça mineira e assamos ovelha no fogo de chão. As festas de Ano-Novo ao redor do globo no ano dois mil ocorreram com uma normalidade brochante e o bug do milênio foi esquecido na ressaca do dia primeiro de janeiro. Quinze anos depois, o que começava a espalhar seus tentáculos pela sensibilidade de gente adulta e esclarecida como Aurora era outra coisa, uma angústia diferente da tensão pré-milênio. A nova angústia era essa expectativa difusa de um sufocamento vagaroso e irreversível, após o qual não restaria nada. Eu não desejava pensar como ela, não queria ser contaminado por aquele pessimismo. Havia construído uma vida boa para mim, liderava uma empresa bem-sucedida e tinha um filho para criar. Eu era um humanista, doava dinheiro para creches comunitárias e crowdfunding de pesquisas para o aperfeiçoamento de painéis solares. Eu acreditava no futuro, na economia criativa e na capacidade do capitalismo de digerir todas as suas contradições, inclusive os apocalipses. O mundo, eu pensava, não precisava ser salvo, e por isso seria salvo justamente por aquelas pessoas que não acreditavam que ele precisava ser salvo." (Fragmento de "Meia-Noite e Vinte", de Daniel Galera)
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