LEITURA - A grande ironia do mundo
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de dezembro de 2010
Marcos Losnak <br>Especial para a Folha2 
Florescimento, ascensão, primazia, queda e decadência. Os ciclos percorridos pelas civilizações ao longo dos séculos podem ser igualmente percorridos pelos homens ao longo dos anos. Olhar para essa trajetória pode ser uma epifania recheada de ironia.
Em seu novo romance, ''Solar'', o escritor inglês Ian McEwan desenha os ciclos de ascensão e queda dentro do mundo contemporâneo travestido do politicamente correto. Tudo com uma ironia polida e ao mesmo tempo picaresca. E de quebra, transforma em piada os discursos ecológicos para a salvação do mundo.
''Solar'' narra a história de Michael Beard, um físico britânico que é agraciado com o Prêmio Nobel e passa a viver de sua fama. Diretor de um centro de pesquisas, ele coordena cientistas aspirantes em criar novas formas de energia limpa e sustentável. Mas sua missão não é salvar o mundo como propaga, mas ganhar dinheiro, dormir com o maior número de mulheres e comer e beber até chegar aos 100 quilos.
Sua maneira extremamente racional e científica em lidar com as coisas facilita tudo e não concede espaço para a culpa. Então, um belo dia, as coisas começam a se rebelar. A quinta esposa, ao descobrir suas puladas de cerca, decide dar o troco. Ao longo dos dias, parece que o mundo decide dar o troco.
Como um personagem picaresco que consegue resolver todo tipo de enrascada através da esperteza, o físico consegue se tornar uma personalidade admirada mundialmente. Seu grande projeto, surrupiado de um funcionário, é criar uma maneira eficiente de transformar a energia solar em energia elétrica.
Em ''Solar'', Ian McEwan cria uma versão atualizada do lendário Rabbit, personagem presente nos romances do escritor norte-americano John Updike. O sujeito que sempre quer se dar bem, imerso num conceito amoral de racionalidade para alimentar desejos e vontades. Um sujeito que é fruto de sua época e da sociedade em que cresceu.
Iam McEwan reveste esse novo Rabbit com uma grossa camada de ironia. Um tipo de ironia que o mundo contemporâneo incorporou como normalidade, onde a verdade seria o item mais irônico que a sociedade seria capaz de criar. Um lugar de onde a fuga exige algo mais que racionalidade.
Em ''Solar'', a figura de Michael Beard possui todas as chances de alterar sua conduta, de realizar todas as reparações possíveis, mas não, ele simplesmente não consegue parar. Todos seus impulsos o levam além, para mais e mais.
Ao longo do romance o autor trabalha com a exposição de duas forças que, apesar de serem vistas como distintas, no fundo são unificadas e complementares. De um lado estaria a força do cotidiano, das pequenas coisas. De outro, a força dos grandes acontecimentos, da ideia de ápice civilizatório.
''Solar'' demonstra justamente que a separação dessas duas forçar, ou melhor, a instauração uma escala de valores pautada por um falso altruísmo, seria a grande ironia do mundo tecnológico atual.
A questão é tão simples que aparece encoberta por um novo universo de necessidades: o afeto não pode ser substituído por novas ciências e novas tecnologias na jornada pela preservação do planeta. O homem, sem afetividade, estaria próximo do fim, a um passo de sua extinção.
Serviço:
- Solar
Autor - Ian McEwan
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Jorio Dauster
Páginas - 344
Quanto - R$ 48
Ele fora iludido. Sempre presumira que chegaria um tempo na vida adulta, uma espécie de planalto, em que haveria aprendido todos os truques de ir levando as coisas, de simplesmente ser. Com todas as cartas e e-mails respondidos, todos os papéis em ordem, livros organizados nas estantes, roupas e sapatos em bom estado nos armários onde poderia encontrá-los; com o passado, incluindo fotografias de outrora, arrumado em caixas e pastas; com a vida privada assentada e serena, assim como as acomodações e as finanças. Em todos aqueles anos, essa arrumação, o calmo platô, nunca apareceu, e apesar disso ele havia continuado a presumir, sem pensar sobre o assunto, que estava pertinho, ali do outro lado da esquina, que em breve ele faria um esforço e o alcançaria. Naquele momento a vida se tornaria clara e mente livre, sua existência como adulto teria então início de fato. Contudo, pensou ter entendido a verdade pela primeira vez: no dia de sua morte, estaria usando meias de pares diferentes, haveria e-mails não respondidos, e na pocilga que chamava de casa ainda existiriam camisas sem botões, uma lâmpada queimada no hall, contas a pagar, sótão a limpar, amigos esperando por uma resposta e amantes que ele não havia confessado ter. O esquecimento, palavra final e matéria de organização, seria seu único consolo.
(Fragmento de Solar de Ian McEwan)


