Elas são cheias de regras e normas. São sérias, rígidas e sisudas. Um verdadeiro tormento para os estudantes, uma pedra no sapato para quem deseja dominar a língua portuguesa. Gramática, pontuação e ortografia são culpadas por parte de toda chatice do mundo.
Tratá-las com bom humor é a opção do escritor e compositor gaúcho Vitor Ramil em seu último livro, "A Primavera da Pontuação", lançado pela editora Cosac Naify. Os personagens do romance são todos termos gramaticais, padrões ortográficos e símbolos de pontuação que vivem uma revolta social.
A história acontece no reino de Ponto Alegre, onde vive uma ampla fauna gramatical da língua portuguesa. O lugar vira de pernas para o ar quando uma palavra-caminhão atropela um ponto e foge do local sem ser identificada. A população se revolta num quebra-quebra e o que seria apenas um acidente de trânsito se transforma numa grande revolta social contra os caminhos da política do reino.
Quando a palavra-caminhão chega em casa repleta de culpa, descobre que o ponto atropelado não morreu, mas ficou grudado no pára-choque. Resgatado, o acidentado recebe os cuidados da palavra-ônibus, esposa da palavra-caminhão. Emocionados com a situação, o casal resolve adotar o ponto como filho, já que, pelo acidente, perdeu a memória e ficou livre do passado. Vivendo uma espécie de redenção, os três fundam uma nova igreja para redimir o mundo.
O enredo de "A Primavera da Pontuação" pode parecer uma maluquice sem fim, mas é justamente essa a brincadeira proposta por Victor Ramil: colocar humor e ludicidade num assunto sério, rígido e sisudo. Não há novidade nessa proposta; muitos autores investiram nessa direção, em especial o escritor francês Raymond Queneau (1903 – 1976). A diferença é que Ramil optou pelo gênero romance, numa narrativa mais alongada, onde o gênero conto, num texto mais enxuto, seria mais do que suficiente para a proposta. E corre o risco de, perante aos olhos do leitor, ter trocado uma chatice por outra chateação.
Em "A Primavera da Pontuação", a revolta da população se mistura com o crescimento da igreja, manobras políticas do rei, conspirações da rainha, grupos de radicais latinos e gregos, policiamento de reformas ortográficas, acentos inescrupulosos, vírgulas desonestas, idealistas do verbo, reacionários gramaticais e outras coisas que funcionam como espelho da sociedade humana.
Na apresentação da obra, o autor afirma que a ideia do livro nasceu de maneira despretensiosa em brincadeiras com a família, na mesa de jantar, em 2002. O projeto, a tentativa de misturar a ciência linguística com brincadeiras surrealistas, ficou na gaveta durantes anos, sendo resgatado recentemente pela mais simples diversão.
Nascido em 1962, na cidade de Pelotas, Vitor Ramil é autor de dez discos e outros dois romances, "Pequod" (Artes & Ofícios, 1995) e "Satolep" (Cosac Naify, 2008). Em seus livros e letras de música o humor não se manifesta em nenhuma situação. "A Primavera da Pontuação" é o primeiro registro de bom humor na obra de Ramil. Um sorriso como vírgula.

Serviço:
"A Primavera da Pontuação"
Autor – Vitor Ramil
Editora – Cosac Naify
Páginas – 192
Quanto – R$ 38,90

Fragmento: O aumento da insegurança nas ruas não intimidou os fiéis da Igreja do Caminho. Pelo contrário, eles aumentaram em número. A igreja agora se chamava Igreja do Caminhozinho. E uma espécie de feira se formara nas imediações. Algumas barraquinhas vendiam circunflexos com a inscrição do novo nome da igreja. Os circunflexos serviam para cobrir as cabeças daqueles que, devido à superlotação, tivessem que acompanhar a pregação do lado de fora, expostos ao sol forte do grande pátio lateral, onde um telão e caixas de sons haviam sido instalados para que a mensagem do pastor chegasse a todos. Havia também muita mendicância. Na escadaria de entrada, uma prótese indigente caída, um velho ph, um grupo de consoantes mudas anciãs e cinco jovens tremas pediam esmolas. Com a mão estendida a prótese dizia: "Não posso me levantar para trabalhar". O velho ph carregava no pescoço um pequeno cartaz em que se lia: "Ajudem esse photographo, vítima de 43". As consoantes mudas anciãs pediam por meio de bilhetes escritos à mão: "sofro de asthma", "tive que abandonar o gymnasio e nunca mais pude voltar a estudar", "fui demitida de um escriptorio e não me deram mais emprego", "sofro da columna". Os jovens tremas se lamuriavam: "Somos vítimas da reforma de 2009, desenvolvemos hérnias de disco tentando trabalhar como dois-pontos". Via-se também uma série de diminutivos desacompanhados esmolando: surdinhos, ceguinhos, esfarrapadinhos. ("A Primavera da Pontuação", de Vitor Ramil)
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