LEITURA - A glória do fracasso
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de abril de 2009
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 2 
Segundo a lenda, em 1978, o escritor Charles Bukovski (1920 - 1994) teria entrado com os dois pés na porta da editora que publicava seus livros. Aos berros, exigia que o romance ''Pergunte ao Pó'', de autoria de John Fante, ganhasse uma nova edição. Ameaçava trocar de editora se a literatura de Fante não voltasse às livrarias.
O desconhecimento sobre a obra de John Fante não era pequeno. A editora conseguiu encontrar um único e sebento exemplar de ''Pergunte ao Pó'', publicado originalmente em 1939, nos porões da Biblioteca Pública de Los Angeles. Bukovski escreveu um prefácio lambendo os pés de Fante e uma nova edição foi publicada causando grande repercussão. Ninguém conseguia entender como um autor daquela categoria tinha permanecido tanto tempo no ostracismo.
Na época, John Fante vivia recluso, aos cuidados da esposa Joyce. Devido à diabete, estava completamente cego e com as duas pernas amputadas. Apesar de passar os dias na cama, conseguiu ditar à mulher seu último livro, o romance ''Sonhos de Bunker Hill'', publicado em 1982 pouco antes de morrer.
Sua literatura chegou ao Brasil na década de 80 pelas mãos da antiga editora Brasiliense. O primeiro romance publicado foi justamente ''Pergunte ao Pó'', com tradução de Paulo Leminski. Depois vieram ''Sonhos de Bunker Hill'', ''Espere a Primavera, Bandini'', ''1933 Foi um Ano Ruim'', ''Rumo a Los Angeles'' e os volumes de contos ''O vinho da Juventude'' e ''A Oeste de Roma''.
John Fante nasceu em abril de 1909, na cidade de Denver, Estados Unidos, exatamente 100 anos atrás. Filho de imigrantes italianos, viveu a típica infância e adolescência de uma família humilde. O pai ganhava a vida como pedreiro, a mãe se dividia entre as tarefas domésticas e as rezas da igreja. Na juventude fugiu de casa e foi tentar a sorte em Los Angeles com o sonho de se tornar escritor.
Em Los Angeles comeu o pão que o diabo amassou e coisas indigestas. Morava nas pensões mais baratas, usava as roupas mais gastas e se alimentava das comidas mais ínfimas. Mesmo assim, manteve firme a idéia de fazer da literatura o farol de sua existência. Esse sentimento está presente em grande parte de seus escritos, especialmente aqueles protagonizados por Arturo Bandini, seu alter ego. Histórias de um sujeito determinado, um cabeça dura que vive em apuros. Independente de seus esforços, sempre está pisando no fracasso, e nem por isso desiste de seus intentos.
Toda a literatura de John Fante é claramente autobiográfica. São personagens procurando mudar de vida e encarando tudo com desprezo e devoção. Uma das características de seus escritos está misturar com elegância aquilo que aparentemente parece óleo e azeite: o bom humor e o sofrimento, a ternura e o ridículo, a glória e o fracasso, magnitude e miséria.
Começou sua carreira publicando contos em revistas literárias e coletâneas. Após publicar dois romances que ninguém deu bola e com a total falta de grana para o leite dos quatro filhos, passou a fazer aquilo que todos os autores estavam fazendo na época: criar roteiros cinematográficos. Com salário fixo, Fante passou grande parte da vida escrevendo roteiros para a indústria de Hollywood. Dos mais de 30 roteiros que criou, apenas oito foram filmados, todos dignos da ''Sessão da Tarde''.
Paralela à carreira inexpressiva como roteirista de cinema, continuou escrevendo seus livros e guardando na gaveta. Praticamente metade de sua produção literária foi publicada logo após sua morte, ocorrida em maio de 1983. Determinação e fracasso pontuaram o enredo de suas histórias. Fazendo uso de uma linguagem pautada pela simplicidade, transformou o fracasso em glória.
Hoje, os livros de Fante publicados pela Brasiliense na década de 80 são objetos raros em sebos. Mas é possível encontrar nas livrarias novas edições com novas traduções. ''Pergunte ao Pó'' foi relançado em 2003 pela editora José Olympio com tradução de Roberto Muggiati. A mesma editora relançou posteriormente ''Espere a Primavera'' e ''A Caminho de Los Angeles''. Na sequência a editora L&PM colocou nas livrarias, em versão pocket, ''1933 Foi um Ano Ruim'' e ''Sonhos de Bunker Hill''.
Difícil imaginar John Fante sobre um bolo de chocolate apagando 100 velinhas. Certamente alguém, com uma dose a mais, derrubaria o bolo no chão. Naquela posição ideal, seguindo a gloriosa tradição da Lei de Murphy.


